terça-feira, 24 de agosto de 2010

34 - MI CASA, SU CASA.


O lance é que agora eu sou o feliz proprietário de um fogão, uma geladeira, um futton sofá-cama, uma cama super king size, quatro prateleiras com alguns livros, quadrinhos, filmes e poucos cds, um baixolão Eagle, um baixo elétrico Epiphone, um violão Epiphone, dois amps (um deles eu transformei numa mesinha de centro, vai ficar bacana quando eu colocar o tampo de vidro, e ainda funciona!), um paneleiro cheio de panelas e colheres e outros utensílios, uma estante de metal que eu uso como guarda-roupa, meio bongô Headliner (preciso trocar o couro pra ficar um bongô inteiro de novo), uma guitarra Snake de 42 anos toda fudida, uma bateria Mapex, um pandeiro Contemporânea (que também preciso trocar o couro) um iMac, um monitor auxiliar, três banquinhos altos, um monte de pratos e copos, minha mesa feita de porta e cavaletes, lápis e canetas e algumas tintas espalhadas por ela, um quadro do Apolo Torres, algumas luminárias, tudo isso espalhado em um apartamento de 60m2 aqui no Bexiga, mais conhecido como Bixiga.

E pra bancar tudo isso, um desemprego.

Que foda, lá vou eu de novo caçar outro trampo porque os caras vieram de novo com a história de que a agência tá passando por uma crise e tão demitindo os mais novos de casa, mas e aí? #ComoFaz? Porque desse jeito eu não vou ser o mais velho de casa nunca, né? Os caras contratam, fazem RP, soltam nota em todos os veículos do meio dizendo que contratou você e mais dois redatores, e pouco mais de um mês depois demitem você e os dois redatores que contrataram porque são os mais novos de casa. Que xaveco, viu. Quero ver é soltar errata agora nos veículos: "agência X contratou mas já demitiu o diretor de arte e os redatores blá blá blá...". E ainda vieram com a idéia de que a gente não tinha direito a receber nada, mas voltaram atrás, em parte. Mas ok, bola pra frente, não é a primeira vez que passo por isso, nem vai ser a última.

Quando eu aluguei esse apê ainda pensei nisso, "quer ver que vai dar zica?", e deu-se a zica. Agora, que é legal é, viu. Montar uma casa é embaçado, gasta uma graaaaaana, mas depois da coisa toda pronta, dá gosto. E olha que falta uma tv decente com um home theater decente na sala, mas como não tenho o costume de assistir muito tv, tá ok. E com esse lance de ficar sem trampo, fico aqui vendo as coisas que ainda tem pra fazer, o que dá e o que não dá e... saco, na verdade é o seguinte, eu tô PUTO que os caras me mandaram embora, me dediquei àquela merda, virei noite trabalhando, saí tarde muitas vezes, cheguei cedo algumas vezes, dei meu melhor, aprovei campanha, ganhei concorrência, pra depois nêgo vem me dizer que tá me mandando embora pq sou mais novo de casa, puta-que-o-pariu mil vezes, vai tomá no cu. E ainda me responde o e-mail de despedida desejando sorte na minha estrada e dizendo que tem certeza de que vou me recolocar logo. Vou me recolocar na tua irmã, babaca. E que certeza é essa de que vou me recolocar logo? Como se conhecesse o mercado tão bem. Nada é certeza de nada nessa porra, não me vem com essa, perder o emprego é uma merda. E responde e-mail... na hora, quem manda embora é o RH, o sujeito nem dá as caras, sendo que pouco tempo antes tava pedindo ajuda, compreensão e comprometimento para com o momento que a agência tava passando. Aí você ajuda, compreende e se compromete e toma um pé na bunda, é foda. E tem outras coisas ainda que nem vou entrar em detalhes, foda-se, largamão.

A parte boa dessa porra toda é que eu fui pra casa da minha mãe, comi pra cacete o rango dela, descansei, revi alguns amigos e usei todo o meu grande talento pra marcenaria e fiz esse quadro de temperos aí da foto. Ficou ducaray, e quando eu terminei ficou todo mundo olhando pra minha cara como se eu tivesse parido um urso panda, porque, sério mesmo, eu não sei pregar um prego num isopor, lidar com martelo, madeira, cola, essas paradas, sem chance. Também fixei as prateleiras na parede, uma mesa retrátil que, na boa, deveria ter feito uns 5 anos de engenharia civil pra colocar, o paneleiro, a porra toda. Eu sou completamente a favor da geração de emprego, acho que tem mais é que contratar um marceneiro pra fazer tudo isso mesmo, mas meti na cabeça que ia fazer e fiz, só pra ter a sensação de que fiz alguma coisa minha, do jeito que eu queria, que eu achava que tinha que ser, e não um anúncio ou layout que todo mundo mete a mão e faz virar qualquer coisa. Gostei de fazer e tenho encomenda pra mais três agora, um deles pra uns 45 frascos de tempero, que meu vizinho nerd chef de cozinha gente fina bagaray quer, fudêu. Outro pro amigo dele, e outro pro @davidlmb, dono do alimentandoideias aqui.

No mais, tô por aqui: 60m2 se torna grande quando você se acostuma. Como eu tô em casa direto, eu dou uma limpada geral, ajeito um quadro, dou uma olhada no casal de lésbicas se pegando no prédio da frente, faço um rango, vejo uns sites de design e de pornografia... Fiz aquelas conservas de pimentas que vocês vêem no quadro: uma só com azeite, outra com vinagre, cachaça Boazinha, açúcar e sal, outra com mel e cachaça Seleta que sobrou e eu tô tomando enquanto escrevo, em tempo. Tem outra de pimenta biquinho, pimenta cambuci (acho), cebolinhas e tinha alho, mas tava cheio de agrotóxico e reagiu com o vinagre e ficou azul, taoqueopariu! Um camarada engenheiro de alimentos disse que era bom tirar e que não ia afetar o restante da conserva, tranquilo. Tem hora que eu acho que tá faltando alguma coisa, às vezes acho que é uma planta, às vezes acho que tenho que me desfazer da bateria, em outras tenho certeza que o que falta é uma namorada andando só de calcinha pela casa... e assim vou seguindo, naquele ócio que só o desemprego dá.

Ôpa, ó lá o casalzinho no prédio da frente de novo... #cool!

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Vista da sala para a cozinha, clique na imagem pra aumentar.
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quinta-feira, 20 de maio de 2010

33 - REGULAMENTAR PRA NÃO REGULAR.


Lendo e assistindo alguns debates sobre a legalização das drogas, eu vi algumas opiniões que até então me haviam passadas desapercebidas: não a questão da proibição, legalização ou descriminalização, mas sim a questão da regulamentação das drogas. O buraco é mais embaixo, porque mesmo que seja liberada, é preciso que haja regras pra que isso aconteça. Pra parar de regular, é preciso regulamentar! E aí eu resolvi escrever sobre uma coisa que tava na minha mente faz tempo. Eu acho o seguinte: assim como na lei de trânsito, que pra você dirigir um automóvel você precisa da CNH (Carteira Nacional de Habilitação), com suas respectivas categorias, acho que pra você poder regulamentar e deixar claro a função de cada um (afinal, a única função existente até então é a de bandido) é habilitar as pessoas em seus vários níveis de manuseio ou contato com as drogas. Isso envolveria educação, conscientização, treinamento, pesquisa, cursos, palestras... muito parecido com o que temos hoje no trânsito. O governo iniciaria o primeiro cultivo da erva e para a distribuição, e os usuários, fornecedores e cultivadores seriam habilitados da seguinte maneira:

CATEGORIA U - USUÁRIO

Após alguns meses de cursos dado pelo governo sobre o uso e os problemas que acarretariam pra saúde sobre o uso da erva, a pessoa receberia uma habilitação da categoria U, de Usuário. Ela estaria apta a portar um peso X para uso próprio, a transportar e usar em locais disponíveis para a prática do fumo. Com isso acabariam os problemas com a polícia na rua em caso de abordagens de rotina em que normalmente o usuário é sempre taxado de bandido. Habilitado, seria mais seguro andar por aí, E assim como no automóvel, multas e apreenções e, em caso de reincidência , até mesmo retenção para quem andar com um beque sem estar habilitado.

CATEGORIA UD - USUÁRIO / DISTRIBUIDOR

Após 1 ano como usuário, a pessoa poderá iniciar o processo para a tirar a habilitação UD, de Usuário/Distribuidor. Essa pessoa faria uma série de cursos, frequentaria uma série de palestras sobre o tema, faria prestaria serviço comunitário com o objetivo de educar e discutir o tema, bem como teria treinamento de vendas PASSIVA para fornecer a erva para usuários habilitados na categoria U. Poderia abrir um ponto de venda em um local apropriado para o armazenamento e distribuição da erva. O preço poderia ser tabelado para evitar a concorrência predatória (por isso também o treinamento na venda passiva).

CATEGORIA UDF - USUÁRIO / DISTRIBUIDOR / FORNECEDOR

Após um período como Usuário ou Usuário/Distribuidor, qualquer pessoa que tenha um local apropriado para o plantio da erva poderia iniciar o processo para tirar a carteira de habilitação categoria UDF - Usuário/Distribuidor/Fornecedor. Essa pessoa seria treinada pelo governo para dar sequência ao plantio iniciado para uma melhor distribuição pelo país da erva. Isso seria importante para que, após um período estudando nas fazendas de maconha do governo, ouvesse um melhor know how de plantio para cada região do país, devido ao clima e características do solo de cada região. Ao longo do tempo essa pessoa iria recebendo certificações e autorização para uma maior capacidade de plantio da erva e incentivos financeiros para a pesquisa de cultivo para os vários tipos de sementes diferentes, em conjunto com o SEBRAE, por exemplo.

Com a legalização da erva e a correta regulamentação, o usuário poderia ter mais tranquilidade para andar pelas ruas sem ser taxado de bandido, ovos empregos seriam gerados e novas arrecadações de impostos e taxas. O pequeno traficante poderia sair da clandestinidade e ser integrado à sociedade, os empresários teriam uma nova opção de negócios, como a inauguração de clubes ou cafés habilitados para o usuário, a qualidade das sementes melhorariam e abririam-se campo para novas pesquisas e investimentos na área.

Claro que isso é só um esboço para gerar alguma discussão, muito precisa ser discutido. Alguns podem achar que impor regras seria mais como uma nova forma de controle ou repressão por partes das autoridades; mas sem regras nenhuma, apenas com leis ultrapassadas e provincianas, o que se tem é apenas despreparo, ignorância e violência. Que é como está hoje.

PS: eu até ia colocar os 3 modelos das carteiras de habilitação aqui, mas como eu sei que tem um monte de espíritos de pouca luz por aí, achei melhor não.

PS2: Se alguém tiver mais algumas idéias em cima disso, vamos melhorar! O negócio é transformar todo mundo em maconheiro de carteirinha, há! Eu, claro, teria que tirar uma habilitação FNU - Fornecedor Não-Usuário.

Abrax!

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

32 - Subway Blues


Certa feita, eu tava no metrô a caminho do trabalho, meio que ali olhando pro chão minding my own business, quando notei uma mulher na minha frente. Ela tava com um olho roxo, roxasso, de porrada mesmo. Tava chorando, daqueles choros parados, de só correr lágrimas, sem resfolegar ou soluçar. Depois de um tempinho (e eu na frente dela olhando pra um lado, pro outro, pra baixo... e pra ela), ela começou a esfregar as mãos, mais precisamente os dedos, o dedo, e a aliança. Era uma aliança de noivado, dessas grossas de ouro que dá pra escrever o nome do casal e data de casamento e tudo o mais. Esfregou, esfregou, coçou, foi rodando a aliança no dedo até tirar, tava difícil, não saía fácil, mas saiu. Ela segurou a aliança na mão, apertou, apertou e manteve na mão até quando o metrô parou em uma estação: quando a porta se abriu, ela jogou a aliança no vão do trilho, foi pro fundo do vagão e se sentou em um banco vazio lá, apoiou a cabeça na mão e chorou com mais veemência.

Fiquei triste por ela, meio revoltado também. Parecia ser uma moça legal, ela tinha um jeitão bem normal, não usava nenhuma roupa que chamasse atenção, não tinha um corte de cabelo diferente, usava um par de tênis desses de caminhar. Não sei se ela fez por merecer, mas parecia que não. Se ela merecesse, provavelmente estaria de óculos escuros e nariz empinado. Era de manhã, passei o dia inteiro meio melancólico. Terminar um noivado dessa maneira, que foda...

Andar de metrô tem dessas. Engraçado, de ônibus eu quase nunca noto nada, nada acontece. É sempre a mesma coisa, mas no metrô eu já vi bastante coisa, umas engraçadas, outras não como a história da moça aí de cima. Eu poderia contar algumas aqui, mas tô com uma certa preguiça, confesso. Na verdade, esse post é pra falar de uma coisa que eu vi hoje, mais singela.

Hoje, eu vi o que pode ser o começo de um relacionamento.

Eu tava ali em pé, pensando na vida como sempre esperando o metrô chegar, e tinha duas pessoas, um casal, conversando do meu lado. Falavam trivialidades do trabalho e coisas assim. Quando entramos eu fiquei em pé ao lado da porta e eles ficaram em pé na outra porta do mesmo lado que eu. Confesso que dei uma olhada com atenção pra moça, ela tava bem sexy, com uma calça apertada e uma camisa com uns babados na frente, parecendo aquelas coisas que os dândis franceses usavam. Gostosa né?, pra usar um português bem claro. (Abro aqui um parêntese: nem toda mulher gostosa é sexy, mas toda mulher sexy é gostosa.) Tinha uns 30 anos, cabelo amarrado com um rabo de cavalo bem feito, sorrisão, falava gesticulando. Ele tinha mais de 30, camisa branca um número acima, meio surrada, por dentro da calça social preta. E com uma barriga ali já se pronunciando.

Fiquei ali na minha, e quando olhei de novo, eles estavam parados um de frente pro outro, olhos nos olhos. Ela com aquele sorrisinho apreensivo no rosto, ele olhando mais sério pra ela. Falaram mais alguma coisa, pararam, ela encostou mais nele, ele encostou mais na parede do vagão, ala afastou mais um pouco, sorriu, ele sorriu sem graça. Ela olhou pra um lado e pro outro, como que conferindo se não tinha ninguém vendo que ela tava mais dando em cima dele do que ele dando em cima dela. É engraçado ver alguém querer manter uma descrição e privacidade num vagão lotado. Voltou a olhar pra ele, chegou mais perto, ele novamente encostou mais na parede, mas dessa vez levou a mão até a cintura dela e ela, num gesto que me deixou surpreso, afastou a mão dele, mas encostou mais o corpo e chegou a cabeça mais perto da dele, ficando nas pontas dos pés, era mais baixa que ele. Fiquei vendo essa cena e pensando que é raro presenciar algo assim em pessoas com mais de 30 anos. Você vê isso muito com adolescentes na porta da escola, no portão do condomínio (não existe portão de casa mais), ou até mesmo no metrô. Mas pessoas com mais de 30 tem todo um aparato de restaurantes, vinhos, palavras colocadas eloquentementes pra impressionar sem parecer que tá se mostrando, assuntos como livros, filmes, terapia, trabalho, trabalho, trabalho, olhares não mais de admiração e sim de estudo, reuniõezinhas de amigos, muita coisa pensada. Mas eles não... eles estavam ali, se paquerando numa boa, naquele beija/não beija, encosta o corpo, afasta o corpo, bailando no metrô, ela com borboletas no estômago e ele pensando ou em sexo ou se namorava ou se não namorava ou se era melhor ele beijar ou não ou sei lá. Na prática, ele não tava fazendo muita coisa. Teve uma hora que deu vontade de ir lá e dar um pescotapa no sujeito e mandar "BEIJA A MINA, ZÉ RUELA!", ogro que sou, mas me recolhi à minha condição voyerística. A gente entrou na estação Clínicas, e isso já durava até a estação Brigadeiro. Como todo mundo costuma descer no Paraíso, fiquei ali torcendo pra que o beijo saísse. As portas se fecharam, e quando o metrô pegou velocidade e ela novamente chegou mais perto dele, encostou o corpo todo, olhou bem nos olhos dele, ele levou a mão até o rosto dela, segurou no queixo dela, apertou o queixo dela um pouquinho, deu uma balançadinha, sorriu e soltou. Sabe, aquelas balançadinhas tipo Hebe Camargo, "graciiiiiinha"? Pois é, dessas. Ela sorriu também se afastando dele e balançando a cabeça negativamente. Por mais sorriso que exista, uma negativa é sempre uma negativa, e quando o trem parou, ele se adiantou pra sair porta afora e ela deu aquele suspirão atrás dele, tipo "xé, criôlo difícil", hahaha.

Espero que dê tudo certo pra eles, que ele vença a timidez ou que ele, se não está, se apaixone por ela, ela por ele, namorem, noivem, casem, tenham filhos, netos, bisnetos e tudo o mais, e que o relacionamento deles não termine com um olho roxo e uma aliança atirada no vão dos trilhos do metrô.

Um ótimo ano pra todos!

Vou lá que a @fesanches, o @brunohazan, o @davidmlb, a @reginaschirmer e a Tarsila tão me esperando pra jantar. Só a Tarsila tem nome próprio, assim com letra maiúscula no começo. Viva ela!

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Foto: tirei no metrô, não sei quem são as pessoas.

Esse texto foi todo escrito no OmmWriter, programinha bem legal AQUI.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

31 - TIMES LIKE THIS.


Tô aqui tentando escrever sobre o Amor, a Terra e o Tempo, esse tempo, o nosso tempo. Eu sei que eles se conectam de alguma maneira, mas não consigo achar o ponto, nem como começar a tecer a linha pela qual eles correm, então vou apenas colocar os pensamentos na sequência em que eles vão aparecendo. Me recordo da primeira frase de "Um Conto de Duas Cidades", de Charles Dickens. "Foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos". Todos estamos conectados de alguma maneira, mas nunca fomos tão sozinhos cercados de tantas pessoas. Queremos nos relacionar, mas não queremos perder a liberdade. Temos liberdade, mas não sabemos direito o que fazer com ela. Zygmunt Bauman descreve o amor de hoje como Amor Líquido: adaptável, mas que se esvai com facilidade. Diz que amor é posse, desejo é consumo. Quando você ama, você quer possuir, ter. Quando você deseja, você quer consumir até que se acabe. O amor quer perpetuar, o desejo quer se satisfazer. Ele dá a entender que no nosso tempo, fazemos confusão entre amor e desejo. Desejamos tão intensamente que parece amor, mas não é.

E quando o amor se vai, nos sentimos vazios.

Esse é um retrato do nosso tempo que ele não trata no livro: o amor líquido, por ser líquido, também preenche.

Um dos aspectos mais interessantes de se observar nos tempos de hoje, quando estamos todos conectados, é também a dificuldade que temos de nos livrar de um amor. Um relacionamento fracassado. Uma amiga, a Mara, disse isso uma vez, eu fiquei pensando muito sobre como é verdade. Quando não tinhamos internet, celulares e tudo o mais, terminávamos um relacionamento e praticamente nunca mais víamos a pessoa. Às vezes as encontrávamos pela rua, tomados por susto ou supresa por vê-la mais velha, mais nova, mais gorda, mais magra, melhor, pior... hoje, ela está lá, presente, vemos seus twitts, seus posts, seus perfis, seu rosto e sua vida nos quadradinhos das redes sociais. Achamos que estão falando da gente, passamos a espiar suas páginas em orkuts, facebooks... nos tornamos um tanto paranóicos, espreitando sem se dar conta que também somos espreitados. Não encontramos um amor, não nos livramos dele.

Procuramos produzir menos lixo. Reciclamos lixo. Buscamos maneiras sustentáveis de viver. Economizamos água. Pra cada cientista que aparece dizendo que estamos matando a terra, existe outro dizendo que é tudo bobagem. Me lembro do Flaming Lips, em Race for The Prize: "Two scientists were racing / For the good of all mankind / Both of them side by side / So determined". Dia desses vi uma frase, apenas uma parte dela na verdade, no Discovery, que chamou minha atenção: "...o Planeta se renova." Acho que a Terra está se renovando, mas já há muito tempo. Essa percepção de que precisamos fazer alguma coisa é muito recente. Antes, era um assunto quase elitizado, ou financeiramente ou intelectualmente, relegada ao hippies ou aos seguidores dos gurus espirituais orientais. Com o advento da internet, todos falam, todos fazem uma pequena contribuição ao planeta. Uma vez um desses cientistas disse na tv que era muita pretensão a gente achar que podemos ajudar um organismo vivo de milhares de anos. Eu acho que a Terra agradece a ajuda, mas acho interessante essa linha de raciocínio, por um motivo muito simples: ajudando ou não, se o planeta quiser matar todo mundo, ele o faz num piscar de olhos. Não sei porque ele faria isso, mas se for necessário, com uma tremida ele manda a gente pra puta que pariu, e pensar nisso dá um certo sentimento de impotência, então... é bom nos sentirmos úteis.

Não temos mais tempo. Um dia tem só 12 horas hoje em dia. Fizemos carro pra otimizar o tempo pra chegar nos lugares, construímos um montão deles até entupir todas as estradas e ruas e avenidas agora perdemos tempo no trânsito. Inventamos computadores pra fazer nosso trabalho mais rápido, mas o volume de trabalho quadruplicou, e como perdemos tempo no trânsito, o tempo que gastaríamos pra fazer coisas pra gente usamos pra trabalhar, e o que sobra, dormimos, quando conseguimos. Se tudo está parado, porque tudo parece acelerado? Vivemos mais dentro de um filme do Tony Scott do que do Ridley. Perdemos o costume de contemplar, filosofar, pensar. Substituímos por caçar e absorver referências. Mas quase não temos tempo de compartilhar essas referências com os amigos numa mesa de bar ou com a pessoa que amamos no sofá da sala. Algumas pessoas têm esse acúmulo de conhecimento como status. Olham com desdém pra outras pessoas que sabem "menos". Transferiu-se a máxima de que "sexo é melhor em qualidade que quantidade" pra "conhecimento é melhor em quantidade que qualidade". Gastam o precioso tempo adquirindo informação e morrendo aos poucos cada dia mais fechados em si mesmos. Perdemos o costume de morar em comunidades, vivemos sozinhos em apartamentos, reclamando da solidão. Um dia li um texto da Tati Bernardes que ela dizia que tinha bode de sair de casa porque não conseguia achar mais ninguém interessante, e se perguntava onde andavam essas pessoas. Concluía que estavam, como ela, também fechados em casa, também não acharem pessoas interessantes. Esse é uma das armadilhas adquirir referência, e não cultura: a inabilidade de se relacionar com pessoas que sabem "menos" que a gente. Vivemos dificultando o diálogo. Quando adquirimos cultura, sabemos lidar, respeitar nos relacionar com qualquer outro tipo de pessoa. Estamos sobrecarregados de informações, e não temos tempo de compartilhá-las face-a-face: as twittamos, re-twittamos, facebookeamos, orkutamos e esperamos que a outra pessoa faça o mesmo, nos dê crédito e, em alguma instância do pensamento, esperamos que a informação seja útil de alguma maneira.

Pode parecer um quadro estranho, mas... e se for isso mesmo? E se essa é realmente a maneira que vamos nos relacionar daqui pra frente com nosso amor, com as pessoas, com nosso planeta e com nosso tempo? E se essa forma de amar também é correta? Amar rápido, desamar rápido, amar rápido novamente. O que não podemos é perder a capacidade de nos encantar por alguém, de acharmos pesssoas interessantes dentro ou fora do nosso círculo social. Como disseram Milton e Caetano, toda meira de amar vale a pena. E se choramos demais por amor, é porque amamos muito também. Ajudamos o planeta, estamos desenvolvendo uma consciência ambiental significativa, adquirimos informação, a repassamos, criamos e recebemos créditos pelo que fazemos. Se vivemos, às vezes, de maneira superficial, e daí? Quem disse que temos que viver como nossos pais ou avós? Somos donos de nós mesmos, pro bem e pro mal. Somos finalmente livres, e essa liberdade toda nos prende à uma percepção de que as coisas antes eram mais fáceis, mas lentas, mais calmas ou melhores antigamente. Mas esse é nosso mundo, esse é nosso tempo, e o que temos que fazer é aprender a conviver com essa nova ordem mundial. Nós mesmos causamos nossas alegrias e mazelas. Respeitar o ser humano, online ou offline, geek ou freak, cool ou nerd. Assuntar bons assuntos, seja biritando ou teclando.

Eu não sei o tempo que o planeta vai durar, então sigo reciclando lixo e fazendo bom uso da água. Também não sei o tempo que um relacionamento vai durar, por isso só amo intensamente.

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Foto: Creio ser do filme Zeitgeist - The Movie, aqui!

terça-feira, 10 de novembro de 2009

30 - AFASTA DE MIM ESSE CALE-SE.


Tem dia a gente é meio que forçado a ser Jesus.

Hoje, dia 09 de novembro, segunda, foi um dia estranho, um dia que eu chamei de o Dia da Ignorância. E não tô falando da ignorância vitimizada, aquela do não saber, aquela que a gente acha que é abençoada. Foi o dia da maldita ignorância. Gente intelectual ignorante, gente burra ignorante, gente rica ignorante, gente pobre ignorante... tudo isso depois do meio-dia.

Começou com um e-mail que eu recebi, com o subject "DILMA ROUSSEF com fotos das vítimas". Ok, vamos lá, vamos ver. Tava lá um texto porcamente escrito em tom de súplica, pedindo aos brasileiros que não votassem na referida canditada, por ela ter sido uma terrorista/guerrilheira no passado. E tinha lá também um monte de fotos dos corpos das vítimas. O engraçado era que as vítimas eram todos militares da época da ditadura (salvo o jornalista Régis de Carvalho), militares esses que enfiavam fios com eletrochoque no cu de mulheres grávidas, faziam as pessoas meterem a boca no escapamento do carro para inalar fumaça de óleo diesel até morrer (né Davidoso), enfiavam agulhas embaixo das unhas de quem eles queriam arrancar alguma coisa qualquer.

Eu não tô defendendo a Dilma, que fique bem claro, e nem tenho procuração pra algo do tipo e nem vou votar nela, mas um mail desse tipo é de uma ignorância ancestral, é usar de uma artimanha imbecil pra tentar manipular alguém ou uma parcela da sociedade, sei lá. A ignorância é tanta, que quem fez essa merda poderia ter pesquisado mais, e argumentado por exemplo que a luta armada no Brasil teve como pano de fundo o combate à ditadura, mas com o propósito de instalar no país uma outra ditadura, dessa vez comunista. Fora que poderia ter perdido o tempo pra achar falcatruas mais atuais. Enfim, se ela é ou não errada, se matou ou não matou, se os milicos eram vítimas mesmo ou não, não importa. Eu mesmo posso estar sendo ignorante bem agora, não conhecia os milicos que morreram. Mas foda-se: e-mail ignorante escrito por algum babaca qualquer sem ter mais o que fazer.

Depois fui ao banco pra tentar sacar o cheque do meu pagamento. Como tive que abrir uma empresa porque os ignorantes da direção da Eugenio me encheram o saco pra abrir, e me demitiram logo depois de aberta, o cheque sai em nome da minha empresa. Minha empresa se chama Luiz Ernani Mariano Gráfica ME. Meu nome é Luiz Ernani Mariano de Oliveira. Fui lá com o cheque, com o meu RG e com o cartão do banco onde tenho conta escrito "Luiz Ernani Mariano Gráfica ME", mas não pude sacar porque não tinha o contrato social da empresa. Voltei lá e imprimi um documento que meus contadores me enviaram, um Requerimento de Empresário, porque não existe contrato social para empresa com apenas um sócio. Levei lá o documento, que tinha meus dados e os dados da minha empresa, que tem o meu nome, e nada. Não me pagaram. Pedi pra falar com o gerente. A mulher o chamou e disse "ele não tem o contrato social". Eu disse "não é que eu não tenho. O contrato social não existe pra empresa com um sócio apenas", no que ela me responde "então, se não existe, você não tem!". FILHA DA PUTA! Não é que ela tava certa, a ignorante?? Vaca filha da puta. Daí o gerente me pergunta "você tem o CNPJ?", e eu "cara, sim, mas eu resolvo tudo com esse documento", e ele "se o caixa não aceita, tem que ter o CNPJ".

PORRA!

Eu chamo o gerente pra resolver o problema, e ele diz que quem manda é o caixa?? Perguntei pra ele. "Escuta, afinal, é você quem manda ou é o caixa?" Engasgou, gaguejou, balbuciou, e me mandou buscar o CNPJ. Fui.

Chego na agência, os comentários sobre o fato da Uniban ter expulsado a garota lá via anúncio nos principais jornais do Estado. A ignorância agora era institucionalizada. Eu já sabia, mas tinha passado uma feliz manhã sem me lembrar do assunto. O engraçado é que a Uniban regula grana pra colocar campanha na rua, não aprova nada, faz uns anúncios de merda QUE O REITOR manda fazer, mas pra fazer uma cagada dessa o cara investiu em mídia. É brincadeira... é a vitória da inquisição.

Daí, no Twitter, um camarada que vestiu a persona de mau humorado e rabugento, que todo mundo adora (inclusive eu), alega que quem riscou o capô do carro dele foi um "INFELIZ É UM FAVELADO, FEIO E POBRE QUE PROVAVELMENTE VAI ACABAR MORTO E DEIXARÁ OS FILHOS ÓRFÃOS", e que ele espera "QUE O CICLO SE REPITA POR GERAÇÕES E GERAÇÕES ATÉ QUE ESSA SUB CLASSE DO CARALHO SEJA ESCRAVIZADA E TRATADA COMO GADO."

É foda você chegar no lugar onde você deixou seu carro e encontrar ele riscado. Mas se ele não sabe, a sub classe do caralho é até hoje na tratada como gado, na verdade, por conta de pensamentos e declarações desse tipo. Não se cogitou que poderia ser um desses vândalos de classe média que toda hora a gente vê na tv, e nem se cogitou que o Estado não oferece segurança pra quem deixa o carro na rua. Só que muito provavelmente foi um favelado. Ainda bem que esse camarada é bem ralé, porque se é algum figurão da supra classe que fala uma bosta dessa, é aí polícia entra na favela, pressionada por um Estado Maior, e trata qualquer um como gado, pra ter um culpado, qualquer culpado, culpado por qualquer coisa. A polícia não entra em Moema (onde eu e ele moramos) e escraviza e trata a supra-classe do caralho como gado. Me senti pessoalmente ofendido, porque embora eu nunca tenho sido favelado, morei uma boa parte da minha vida na periferia de Guaulhos e São Paulo e já penei na mão da polícia, procurando por um culpado qualquer. Nunca fui assaltado. Na verdade, eu sou daqueles caras que, quando tá andando pela rua à noite, as pessoas atravessam a rua. De verdade, não é brincadeira não. Eu tenho 1,86m, mais de cem quilos e negro. Mulato, na verdade, mas pra supra-classe não importa, ela é maniqueísta, só existem branco e preto. Se por uma conjunção dos astros eu tô passando perto do carro do meu camarada quando ele viu os arranhões, e ele resolve chamar a polícia, com certeza a corda arrebentaria pro lado mais preto, afinal, eu tô geneticamente inserido na sub classe do caralho. Achei bem ignorante a declaração dele, ainda mais quando logo na sequência ele acusou os jornalistas do caso Uniban de aumentarem a língua portuguesa e inventar palavras como "idílica". Pensei em arrumar uma treta, mas apenas mandei a definição de "idílico" do dicionário da língua portuguesa e desencanei. Ignorante e inculto. Provavelmente tem uma boa graduação e uma série de cursos fantásticos por aí, afinal ele REALMENTE é um grande profissional e um ótimo programador. Mas de vez em quando eu acho que pessoas assim são uma afronta para o meu segundo grau mal concluído em escola pública. Ele devia estar nervoso, cabeça quente, sei lá eu... larguei mão, imprimi o CNPJ da minha empresa e voltei ao banco pela terceira vez pra finalmente sentir o cheiro do meu salário. É foda ter que ficar brigando por uma coisa que é sua, eu poderia ter depositado o cheque, mas ia demorar mais dois dias pra cair e tinha contas e compromissos urgentes pra tratar e pagar. Perguntei ao segurança se poderia falar direto com o gerente (quando fui da segunda vez ele ficou me encarando feio, achei melhor quebrar o gelo), ele disse que sim. Entreguei os papéis, ele deu uma conferida... e liberou. Disse até que eu poderia voltar ao caixa sem pegar fila, ó que beleza. Perguntou também se eu não tinha interesse em passar minha conta para aquele banco, e eu disse apenas NÃO. Só que foi um não tão NÃO, que ele novamente engasgou, gaguejou, balbuciou, apertou minha mão e foi pra mesa dele.

Já com meu salário no bolso, fui até o banco ao qual tenho conta pra poder depositar. Na maioria dos Itaú Personnalité, não existe porta giratória, é um outro tipo de porta, que você chega, abre-se uma, você entra em um cubículo, ela fecha, você dá um passo pra esquerda, e uma outra porta se abre dando acesso à agência. Pra sair, a mesma coisa. Quando eu cheguei, tinha um businessman saindo da agência. Ele chegou na porta, a porta abriu, ele entrou no cubículo e ficou parado, conferindo alguns papéis. Não deu o passo pro lado, que faz com que a outra porta se abra. Ficou lá parado conferindo os papéis. E eu lá parado esperando pra entrar. Eu tava com meus papéis da empresa enrolados na mão, e dei uma batidinha de leve na porta pra avisar que ele tinha que dar um passo pro lado pra outra porta abrir, e ele o fez, e ao fazer, passou por mim me olhando de cima abaixo com uma cara muito feia, mas muito feia, como se eu tivesse incomodando. Na hora me deu uma disposição fudida de dar uma porrada na cara do FILHO DA PUTA IGNORANTE, olhei pra ele e balancei a cabeça como quem diz "cai pra cima, filho da puta". Tudo isso em questão de segundos. Ele me encarou, eu chamei pro pau... e ele afinou, abaixou a cabeça e saiu andando. Entrei no banco com cara de poucos amigos, e tinha uma pequena fila. Tomei o meu lugar nela e, quando eu tava lá, pensei nesse texto e que eu deveria escrever pro meu blog. Eu sempre penso em como eu devo começar um texto, e fiquei pensando em tudo o que a merda do cristianismo nos ensinou. Hoje me deu vontade de socar o caixa do banco, depois o gerente, depois o segurança que ficou me encarando feio, depois arrumar treta com meu camarada do Twitter que todo mundo adora, inclusive eu, depois tive vontade de sair na mão com o businessman do banco, mas ali, na fila, quando eu consegui respirar, me veio à cabeça essa frase com a qual eu comecei esse texto: Tem dia a gente é meio que forçado a ser Jesus. É melhor apenas balançar a cabeça e pedir "Pai, perdoai-os, pois esses ignorantes do caralho não sabem o que fazem."

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

29 - KÜBLER-ROSS E O PROCESSO DE CRIAÇÃO


Elisabeth Kübler-Ross foi uma psiquiatra pioneira nos estudos da morte. Ela morreu em 2004 vítima de uma série de derrames cerebrais, era suíça e morreu no Arizona, e sua maior contribuição científica foi o livro "On Death and Dying" (Morte e o Processo de Morrer), em que ela define 5 estágios do processo de morrer que ficou conhecido como o modelo Kübler-Ross, adotado como um guia para tratamento de pessoas em estado terminal. São eles, segundo a Wikipédia:

1. Negação e Isolamento: "Isso não pode estar acontecendo."

2. Cólera (Raiva): "Por que eu? Não é justo."

3. Negociação: "Me deixe viver apenas até meus filhos crescerem."

4. Depressão: "Estou tão triste. Por que me preocupar com qualquer coisa?"

5. Aceitação: "Tudo vai acabar bem."

Você define uma pessoa como gênio quando um estudo que ela fez se aplica em vários aspectos da vida, não só da morte, no caso desse estudo. Quantas veses numa agência a gente não se sente passando pelos 5 estágios, em que o estado terminal, no caso, era o prazo:

"1. NEGAÇÃO E ISOLAMENTO: “ISSO NÃO PODE ESTAR ACONTECENDO.”

"Eu NÃO tive essa idéia. Caralho, vai dar a hora de entregar! Como eu pude ter criado uma porra dessa? A única! É foda, porque que nessas horas nunca vem uma idéia boa, só vem umas merdas dessa. Tá ruim tá ruim tá ruim, meu, o que esse gato tocando violino no telhado tem a ver com bolacha recheada? Vou lá pra salinha pensar mais...

"2. CÓLERA (RAIVA): “POR QUE EU? NÃO É JUSTO.”

"FILHADAPUTA de atendimento de merda, vai tomá no cu, o Zé é foda, essa porra desse briefing não explica bosta nenhuma e eu tenho que ficar me fodendo nessa merda, o cara não sabe escrever não!, puta job de bosta, até o estagiário tem um melhor que o meu, não tem lugar na agência pra criar, o que esse povo gosta tahto de futebol??? Trabalhei ontem até 3 da manhã e os caras me vêm com essa porra de hoje pra hoje, todo mundo vai embora cedo, tão de marcação comigo, esse viado do diretor de criação não gosta de mim, é por isso, e ó o título que o outro me passa, "Um dó-ré-mi de sabores", FODA-SE, vai o que tem, vou lá mostrar essa merda pro diretor de criação.

"3. NEGOCIAÇÃO: “ME DEIXE VIVER APENAS ATÉ MEUS FILHOS CRESCEREM.”

– Um gato tocando violino no telhado?
–... é, tipo...
– Mas porque um gato tocando violino no telhado...?
–... é... tipo, quando você come a bolacha, você fica tão bem que até ouve música... e ela vem pelos meios mais inusitados, sabe?
– Sei...
– ...então, mas pode ser um cachorro também, e em vez do telhado ele pode estar ali na rua, no meio das pessoas mesmo, cachorro de repente é mais legal, eu coloco uma luz urbana...
– Luz urbana...
– ...é, tipo... mais assim, vindo do poste... até fica meio como um holofote, voltado pra ele....
– Quem fez o título?
–... foi o Zé...
– Hmmm... o título é bacana... pra quando é esse anúncio?
–...pra hoje...
– Meu, não vamos perder tempo, faz um all-type e manda, não dá tempo de produzir.
– Mas você curte a idéia??
– O título é bom, faz um all-type, estoura ele na página, põe um halo e um packzinho e manda.

"4. DEPRESSÃO: “ESTOU TÃO TRISTE. POR QUE ME PREOCUPAR COM QUALQUER COISA?

Carai de vida, viu... não dá pra fazer nada, não dá pra ir no cinema, não dá pra cumê minha muié, só fico aqui trancado trabalhando, trabalhando, trabalhando, só sai bosta... não cuido dos meus projetos pessoais, não vou pra academia, não saio, fiquei o dia inteiro leiautando essa porra, mó trampo pra achar referência e o cara me vem com all-type, preciso de um plano B... ahh, que se foda, vou fazer isso rapidinho e me mandar, se o cliente não se preocupa vai eu me preocupar?

"5. ACEITAÇÃO: “TUDO VAI ACABAR BEM.”

Ahh vai, até que não ficou mal, as bolachas no lugar do "o" ficaram bacaninhas, o pack ficou com uma composição legal... o título desse viado até que não é ruim mesmo, deu um toque engraçando pro anúncio, vai ficar bacana na revista, diferente, inusitado... pelo menos consegui salvar a luz urbana, agora é só dar uma queimadinha aqui mais em cima e tal... Caramba, quem tá ligando uma hora dessa??
– Alô? Fala Zé... que? O cara cancelou o anúncio? Vai sair com o anterior? Porra mas... mas... tá. Tá bom... é, agora com mais tempo, de repente a gente manda o gato...

terça-feira, 13 de outubro de 2009

28 - RÉQUIEM PARA UM AMIGO


Bastardos Inglórios. Esse foi o último filme que meus óculos viram. Comigo, pelo menos.

Após muita procura, eu comprei esses óculos na C&A do Shopping Morumbi por R$ 39,90 na promoção. A princípio, eles eram uns óculos de sol, escuros, ali no meio de muitos outros óculos baratos na prateleira da loja. Quando vi, pensei "é um diamante bruto...", e após tuná-lo com uma lente de acrílico anti-reflexo com meio grau de miopia de um lado, e meio de astigmatismo do outro por R$ 320,00, lá estava a perfeição traduzida em uma armação de acrílico preto fosco, com uma lente que de tão transparente, parecia que não havia nada. O encaixe perfeito no rosto, o design, a aerodinâmica transformaram esses óculos em uma peça única, reconhecido internacionalmente como "os óculos do Tim". Mas eles não eram apenas um par de óculos, eram a extensão da minha própria personalidade. Eles chamavam a atenção tanto quanto eu mesmo, tinham presença.

Esses óculos viram muita coisa, me fizeram apreciar inúmeros filmes, inúmeros shows, inúmeros corpos nús de mulheres fantásticas, me mostraram o caminho correto e qual o ônibus certo a pegar, em vez de tentar ver ao longe qual era a linha e, quando o ônibus estava numa distância em que eu conseguia enxergar, já era tarde demais. Com eles, eu não perdia mais o busão e também não tomava mais chuva na Marginal.

Quando eu os comprei, eu estava na extinta BatesBrasil. Eles me acompanharam pela Synapsys, Lepera, para algumas filmagens como assistente de arte com o Marcão na produtora Pródigo, fomos pra Portugal, conhecemos Lisboa, Sintra, Cascais e tantas outras, trabalhamos na Fischer Portugal, depois na Eugenio, fomos para Bahia, Aracaju, Natal, Rio, Argentina, trabalhamos na Átomo, na Central Business e tantos outros lugares maravilhosos.

A haste direita se quebrou por uma bobagem: ao entrar em um banheiro apertado numa pequena pizzaria do meu antigo bairro em Guarulhos, eles estavam no bolso por algum motivo, e quando entrei trôpego pela porta, encostei sem querer na pia do banheiro, bem onde eles estavam. A haste quebrou sem chance de conserto, e como havia quebrado já uns 5 óculos em um ano antes dele, coloquei fita isolante preta para segurá-la e assim ficou por 6 anos. A fita na haste da esquerda era apenas para equilibrar o design.

Eu deveria ter trocado a fita-isolante que segurava a haste antes... Após a sessão no HSBC Belas Artes, eu tava descendo as escadas segurando, em uma mão, duas garrafas d'água, e na outra, um monte de lixo, enquanto minha amiga (amazing friend) corria na frente, apertada pra ir ao banheiro. Meus óculos, como tinham muita personalidade, clamava por ser livre, e pelo caminho a haste começou a se desprender e ficou pendurada apenas pela orelha, e como a única mão que tava mais livre era a que tava com o lixo, eu a segurei com ela. E pensando que teria que tomar cuidado quando fosse jogar o lixo no lixo, já que a "perninha" dos meus óculos estava ali no meio. E foi assim pensando que joguei o lixo no lixo com a haste e tudo. Confesso que até dei uma reviradinha no lixo ali pra ver se achava de volta, mas além de ter ido parar lá no fundo, tava meio vexatório eu ali revirando o lixo no meio de todo mundo, de modo que fui pra balada com minha amiga com meus óculos faltando uma perna mesmo.

Lá chegando, pedi ao garçom que me dedicasse uma mesa, e mesmo com a casa cheia ele me alertou que, ao sair da mesa pra dançar, que deixasse alguma bebida ali: era o código da casa para que ninguém pegasse nossa mesa. Assim fiz, e pra provar que era sério mesmo, deixei meus óculos monoperna em cima da mesa, ao que minha amiga disse "Você vai deixar seus óculos aí?", e eu "Sim... melhor, se deixarmos só as bebidas, alguém vem, senta na mesa e ainda bebe", e ela "Mas e se sumirem?", e eu "Vai ser um ótimo fim pra eles. Desaparecidos na balada. E se eu os esquecer, não volto para buscá-los."

Fomos dançar e beber, após algum tempo nessa função, voltamos à mesa, e qual foi nossa surpresa que eles ainda estavam lá. A balada não tava do jeito que a gente queria e fomos embora, bêbados e nos pegando no banco de trás do táxi naquele rolê bacana por São Paulo a noite, a caminho de outra balada. Ela cogitou de irmos pro Astronete, ali pela região da Augusta. Ao descermos do táxi, ela notou que eu finalmente estava sem os óculos. O motorista tinha andado alguns poucos metros e ainda pode ouvir meu grito de "CHEFE! MEUS ÓCULOS!" Ele parou o carro e disse "HEINNN???", e nesse ponto minha amiga disse "Hey, você disse que se os esquecesse, não voltaria para buscá-los."

Palavra dada é palavra dada.

Apenas disse ao chauffeur "Nada não, achei que tinha esquecido alguma coisa..."

Ela não acreditou que eu havia feito isso, mas eu disse que era um bom fim para eles: passeando por aí de táxi, sem pagar nada, pelas ruas de São Paulo.

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Mais sobre meus óculos aqui, no primeiro post do blog