terça-feira, 13 de outubro de 2009

28 - RÉQUIEM PARA UM AMIGO


Bastardos Inglórios. Esse foi o último filme que meus óculos viram. Comigo, pelo menos.

Após muita procura, eu comprei esses óculos na C&A do Shopping Morumbi por R$ 39,90 na promoção. A princípio, eles eram uns óculos de sol, escuros, ali no meio de muitos outros óculos baratos na prateleira da loja. Quando vi, pensei "é um diamante bruto...", e após tuná-lo com uma lente de acrílico anti-reflexo com meio grau de miopia de um lado, e meio de astigmatismo do outro por R$ 320,00, lá estava a perfeição traduzida em uma armação de acrílico preto fosco, com uma lente que de tão transparente, parecia que não havia nada. O encaixe perfeito no rosto, o design, a aerodinâmica transformaram esses óculos em uma peça única, reconhecido internacionalmente como "os óculos do Tim". Mas eles não eram apenas um par de óculos, eram a extensão da minha própria personalidade. Eles chamavam a atenção tanto quanto eu mesmo, tinham presença.

Esses óculos viram muita coisa, me fizeram apreciar inúmeros filmes, inúmeros shows, inúmeros corpos nús de mulheres fantásticas, me mostraram o caminho correto e qual o ônibus certo a pegar, em vez de tentar ver ao longe qual era a linha e, quando o ônibus estava numa distância em que eu conseguia enxergar, já era tarde demais. Com eles, eu não perdia mais o busão e também não tomava mais chuva na Marginal.

Quando eu os comprei, eu estava na extinta BatesBrasil. Eles me acompanharam pela Synapsys, Lepera, para algumas filmagens como assistente de arte com o Marcão na produtora Pródigo, fomos pra Portugal, conhecemos Lisboa, Sintra, Cascais e tantas outras, trabalhamos na Fischer Portugal, depois na Eugenio, fomos para Bahia, Aracaju, Natal, Rio, Argentina, trabalhamos na Átomo, na Central Business e tantos outros lugares maravilhosos.

A haste direita se quebrou por uma bobagem: ao entrar em um banheiro apertado numa pequena pizzaria do meu antigo bairro em Guarulhos, eles estavam no bolso por algum motivo, e quando entrei trôpego pela porta, encostei sem querer na pia do banheiro, bem onde eles estavam. A haste quebrou sem chance de conserto, e como havia quebrado já uns 5 óculos em um ano antes dele, coloquei fita isolante preta para segurá-la e assim ficou por 6 anos. A fita na haste da esquerda era apenas para equilibrar o design.

Eu deveria ter trocado a fita-isolante que segurava a haste antes... Após a sessão no HSBC Belas Artes, eu tava descendo as escadas segurando, em uma mão, duas garrafas d'água, e na outra, um monte de lixo, enquanto minha amiga (amazing friend) corria na frente, apertada pra ir ao banheiro. Meus óculos, como tinham muita personalidade, clamava por ser livre, e pelo caminho a haste começou a se desprender e ficou pendurada apenas pela orelha, e como a única mão que tava mais livre era a que tava com o lixo, eu a segurei com ela. E pensando que teria que tomar cuidado quando fosse jogar o lixo no lixo, já que a "perninha" dos meus óculos estava ali no meio. E foi assim pensando que joguei o lixo no lixo com a haste e tudo. Confesso que até dei uma reviradinha no lixo ali pra ver se achava de volta, mas além de ter ido parar lá no fundo, tava meio vexatório eu ali revirando o lixo no meio de todo mundo, de modo que fui pra balada com minha amiga com meus óculos faltando uma perna mesmo.

Lá chegando, pedi ao garçom que me dedicasse uma mesa, e mesmo com a casa cheia ele me alertou que, ao sair da mesa pra dançar, que deixasse alguma bebida ali: era o código da casa para que ninguém pegasse nossa mesa. Assim fiz, e pra provar que era sério mesmo, deixei meus óculos monoperna em cima da mesa, ao que minha amiga disse "Você vai deixar seus óculos aí?", e eu "Sim... melhor, se deixarmos só as bebidas, alguém vem, senta na mesa e ainda bebe", e ela "Mas e se sumirem?", e eu "Vai ser um ótimo fim pra eles. Desaparecidos na balada. E se eu os esquecer, não volto para buscá-los."

Fomos dançar e beber, após algum tempo nessa função, voltamos à mesa, e qual foi nossa surpresa que eles ainda estavam lá. A balada não tava do jeito que a gente queria e fomos embora, bêbados e nos pegando no banco de trás do táxi naquele rolê bacana por São Paulo a noite, a caminho de outra balada. Ela cogitou de irmos pro Astronete, ali pela região da Augusta. Ao descermos do táxi, ela notou que eu finalmente estava sem os óculos. O motorista tinha andado alguns poucos metros e ainda pode ouvir meu grito de "CHEFE! MEUS ÓCULOS!" Ele parou o carro e disse "HEINNN???", e nesse ponto minha amiga disse "Hey, você disse que se os esquecesse, não voltaria para buscá-los."

Palavra dada é palavra dada.

Apenas disse ao chauffeur "Nada não, achei que tinha esquecido alguma coisa..."

Ela não acreditou que eu havia feito isso, mas eu disse que era um bom fim para eles: passeando por aí de táxi, sem pagar nada, pelas ruas de São Paulo.

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Mais sobre meus óculos aqui, no primeiro post do blog

2 comentários:

Sabrina disse...

OOOOOOOO!!!!!!! Que bela história de companheirismo. Realmente... esses óculos fazem parte da sua personalidade... e agora, meu Deus? E agora?

Panqueique disse...

Nossa Tim, que bonitinho, ele foi mais companheiro que muito amigo. O carinho realmente pode fazer de qualquer coisa algo muito especial e, o melhor, tanto carinho nos engrandece.
Bjs,
Ada