sábado, 27 de setembro de 2008

18. (NÃO ME PESEI) - ?????????????????????????????



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terça-feira, 22 de julho de 2008

17. 121kg - TÁ FODA.



Aos poucos eu tô atualizando, só faltam 2 meses de texto! Tem mais 6 Textos novos aí pra baixo.
Juro que tô tentando!!! E não conseguindo, daí o título do post.

Sábado, 21/06, eu acordei por volta das 10:30h, desci e tava a mesa do café da manhã posta na Comunidade Tsary Ho. Mandei dois pães com manteiga Aviação e queijo prato Teixeira + umas batatas palhas que tavam lá, e um Dan-up pra rebater. Fui pro metrô mastigando uns Mentos, a caminho do trabalho. Chegando no Eldorado, entrei no Carrefour: um copinho de sorvete Häagen-Dass de macadâmea, bom para caraleo, ao qual fui degustando felizão pela passarela que dá ao acesso prédio, uma Pringles, sabor original, uma barra de chocolate Lindt e um suco Del Valle de cajú, e fiquei nessa a tarde toda enquanto pensava na campanha, alternando uma batata, um bloquinho de Lindt e um gole de suco. Resolvi ir ao cinema, e chegando lá, depois de comprar o ingresso (Cinturão Vermelho, de David Mamet: um negão que pratica jiu jitsu brasileiro tem que achar uma saída pra enrascada em que se meteu por seguir fielmente a doutrina jiu jitsu e não participar de competições e nem usar a luta para ganhar dinheiro de maneira desonrada. Com os brasileiros Rodrigo Santoro, John Machado, que presumo ser lutador, e Alice Braga ora enfiada num vestidinho verde, gostosinhasíssima, ora com um tomara-que-caia com os peitinhos apontando majestosamente pra câmera, vale a pena!), fui dar um rolê pela Livraria Cultura e li um gibi inteiro, até perto da hora do filme começar. Fui na cafeteria do Cine Bombril e pedi um café grande, pra me manter acordado, e duas empanadas, uma de carne com uva passa e outra de queijo com cebolas. Depois peguei mais uma água e um saquinho de amareto, biscoitinho daqueles que vem com o café. Depois do filme fui direto pra casa, passei numa banquinha na estação Ana Rosa e comprei dois Prestígios, dois Batons e fui mandando bala até em casa.

Porra, não consigo. Simplesmente não consigo ficar sem me entupir com essas tranqueiras, e olha que tava até light. Mas pô, eu tinha prometido pra mim mesmo que ficaria um ano sem comer essas merdas e simplesmente não consigo! Ficar sem álcool e sem refrigerante até que tá fácil, mas como ganhei uma concorrência interna da agência e vou pra Buenos Aires na faixosa com tudo pago em agosto, decidi que esse negócio de ficar sem álcool por um ano só é válido em território nacional. O lance é que o açúcar tava incluído na lista de proibição, e de todos, é o mais difícil de ficar sem. E nem é porque, como dizem as pessoas, tem açúcar em tudo o que a gente come. Eu queria me livrar do açúcar refinado, esses União ou Da Barra da vida, mas não dá, é um vício ferrado. E tome chocolate, paçoquinha Amor... é uma merda constatar que não consigo ficar um ano sem deixar de fazer coisas que parecem tão simples. Escrever esse blog, por exemplo, um texto por semana. Tô atrasado em uns o que? Três meses ou mais. Poderia usar a desculpa do trampo, que consome mesmo, mas eu sei que não é verdade: não escrevi porque não quis, preferi ficar sem fazer nada olhando pro teto, na maior preguiça. Foda. Agora mesmo, enquanto escrevo, dou umas paradas e umas cochiladas aqui na cama... mas tbm tô escrevendo na cama, né, e tá o maior frio, bom mesmo pra dormir. Me matriculei na academia, fui só duas vezes, uma pra socorrer o professor, e outra numa aula meia-boca, e tchau!

Não tô fazendo exercícios;

Não tô escrevendo meu livro;

Não tô escrevendo meus roteiros;

Não tô estudando o baixo como deveria e, pior;

Não tô seguindo minha dieta.

Parei de emagrecer, e na verdade engordei já 7 quilos dos 14 que perdi.

CARALEO, por que eu não consigo fazer isso??? É só um ano, não pode ser tão difícil assim. Tô me sentindo um bosta. Mas não desisto, engordei 7 quilos mas ainda perdi 10, vamos lá: batalhar pra perder mais 10. E atualizar o blog. E estudar o baixo direito. E me preparar pra encher a cara em Buenos Aires, porque da fronteira pra fora póóóóóde.

16. 121kg - THE MAN WITH NO PLAN.


Qual o problema em não ter um plano?
Porque, afinal de contas, eu não posso viver um dia de cada vez, e ir fazendo as coisas na medida em que elas forem acontecendo, sem pensar em como vai ser no futuro? Pô, eu definitivamente não sou um cara que faz planos, eu nem sei por onde começar a fazer um, eu nunca fiz e acho que nem vou fazer. No máximo combinar alguma coisa, um cinema daqui há uma semana, ou uma viagem pra daqui há um mês, sei lá, mas o planão mesmo, em tal ano estar em tal ponto da minha carreira, casado ou namorando, com filhos ou filho ou não, ter casa, apartamento, ou um carro, ou sei lá, qualquer porra dessa... eu não tenho que ter um plano. Seria bom que eu tivesse, lógico, a maioria das pessoas tem um, mas eu nasci com uma anomalia, uma disfunção hormonal, nasci com falta da glândula que produz a substância que ativa no cérebro a necessidade de planejar minha vida. Acho que um dia eu vou ter todas essas coisas, porque no final das contas, eu sinto falta disso também, eu quero, acho, me casar um dia, seria legal até ter filhos, e com certeza uma casa e um carro bacana, de vez em quando eu páro pra pensar nisso e até acho que seria legal, mas por hora, sou como aquela música do Raul Seixas que diz "não sei onde eu tô indo, mas sei que eu tô no meu caminho".

O foda de não conseguir fazer planos é que isso não me impede de me envolver com as mulheres, e essas sim, têm planos. São umas máquinas de fazer planos, têm a tal glândula DESTE TAMANHO, enfiada em algum lugar entre o coração e o cérebro, e elas adoram me enfiar no meio dos planos delas, como se fosse um favor que me fazem e nem me perguntaram porra nenhuma se eu queria ou não. Ou pior: achavam que era eu quem tinha que fazer o plano e colocá-las nele, dando um belo exemplo de que, por mais liberação e independência que consigam, ainda são bem submissas aos desejos e planos dos homens, na verdade uma máscarazinha pra ter uma amostra de segurança, afinal se eu digo que daqui há 10 anos vou estar com elas ainda, é sinal de que vale a pena continuar, quando na verdade não enxergam um palmo do nariz os gestos no presente que gritam que SIM, estou com elas. E estarei daqui há 10 anos, se cada dia do agora, do já, do presente for bom. E nem precisa ser bom todo dia, na verdade, porque não é mesmo, e é isso que tempera a vida, alternando os momentos bons e os ruins.

Tô falando assim porque minhas duas ex namoradas me jogaram na cara, com a mesma frase, que faziam planos pra gente, eu eu fazia planos pra mim, e que elas nunca estavam inseridas nos meus planos. MAS CARALHO: eu não tô ali? Não tô junto? Não tô dando apoio de todas as maneiras possíveis? Não tô sendo presente? Mesmo trabalhando numa profissão que exige pra cacete, eu sempre, SEMPRE dou um jeito de estar junto, tô sempre gerenciando meu tempo pra ficar junto da pessoa que eu gosto e tô envolvido. Tem hora que eu acho uma bosta me envolver com alguém, porque quando eu me envolvo eu me envolvo MUITO (vide o texto dos Arianos), eu amo MUITO, mas eu tenho sim um desprendimento que assusta: eu não sou ciumento, eu não sou de ficar cobrando ciúme, não sou de ficar perguntando onde tava, com quem tava, que horas tava, acho que as pessoas são livres pra ir e vir MESMO, acredito de verdade que a distância não separa as pessoas, embora seja difícil realmente, mas isso não quer dizer que eu não ame. Só que quando tudo vira uma merda, e eu resolvo que é hora de dar um basta, é um BASTA: seco como tem que ser. E daí tomo na cara que eu não tava realmente envolvido, que eu não amava de verdade, afinal ninguém que ama de verdade termina tudo de uma hora pra outra e segue a vida assim, tranquilamente. E tudo o que eu fiz, tudo o que eu lutei, tudo o que eu guardei pra mim, todo o tempo que eu fiquei ao lado nos momentos difíceis são convenientemente esquecidos, apagados e deletados: toda história tem que ter um vilão, e normalmente, num relacionamento, o vilão de agora era o herói de ontem.

Já assumi o posto de vilão duas vezes. Tô de saco cheio, à merda todo mundo.

Eu sou um cara que vive no presente, porque é o que a gente faz no presente que dita as regras de como o futuro será, e o futuro é daqui a cinco minutos, então eu quero viver agora, o momento, quero que as coisas sejam boas já, e sendo elas boas já, serão daqui a cinco minutos também, sejam esses cinco minutos um ano, 10, 20 ou só cinco minutos mesmo.

O futuro é um monte de presentes acumulados.

Fora o egoísmo disfarçado nisso, afinal, qual o problema de fazer um plano pra mim, e não colocar a outra pessoa nele? Porra, a vida é minha, dá licença? E quem disse que eu quero estar metido em algum plano da vida da outra pessoa, e quem disse que ela não pode fazer um e não me colocar nele? Eu poderia viver tranquilamente com alguém que vive sua própria vida separada da minha, mesmo estando junto comigo. É que até hoje ainda impera a visão romanceada demais de que quando duas pessoas resolvem ter um relacionamento elas viram uma só, quando na verdade não importa o que os poetas dizem, duas pessoas serão sempre duas pessoas, dois grandes universos diferentes que se não forem bem compreendidos, acabam uma hora se chocando. Heh, é impressionante como isso não é colocado nos planos de alguém, que uma hora vai dar merda.

E dá. E quando dá, ó, TOP TOP, os planos indo por água abaixo, porque no final das contas não dá pra planejar imprevistos. Pois eu prefiro jogar no time do imprevisto, e ele me trás gratas surpresas. Como dizem os Titãs, "o acaso vai me proteger enquanto eu andar distraído."

E é assim que é, andamos eu, o imprevisto e o acaso de mãos dadas, firme e forte: à merda com os planos.

Foto: Christopher Walken - "The Man With The Plan", em Coisas Para Se Fazer Em Denver Quando Você Está Morto.

15. VIXI... - CHEVETTÃO RULEZ!!!


Certa feita eu tava subindo a rua de casa com o Chevettão verde do meu irmão e dei de cara com uma mina da vila que eu era louco pra comer. Já tinha rolado uma parada quase lá, conto em outra ocasião, mas ficou no vácuo, de modo que eu tava com o maior tesão acumulado, e quando eu a vi vindo em minha direção com uma calça branca daquelas que ficam gostosas até no varal, como diria Freitinhas, pensei " é hoje, vô atropelá!". Parei o Chevettão do lado e "Hey, Fulana, e aí, quanto tempo, blábláblá, tá bonita, nhénhénhén, vai fazer o que agora, blábláblá, chopinho num bar no centro, vamaí, só conversar, blábláblá", colou. Toca pro centro "tomar um chopinho". Como eu estava monetariamente desprovido na ocasião, parei num Bradescão pra sacar umas merrecas, banco esse que ficava providencialmente bem localizado numa descida, já que o Chevettão ora pegava na hora, ora não. Parei, entrei, saquei, saí, entrei no carro e nem quis arriscar: soltei na banguela, engatei a segundinha e o bicho deu um tranco daqueles imperceptíveis para ouvidos leigos, sendo somente compreendido por um ouvido bem treinado em barulho de motor e pá!, toca pro tal boteco no centro de Guarulhos City, cidade do caralho. Chegando lá, chopp vai, chopp vem, segue o diálogo:

– Poxa Fulana, legal te ver de novo, você tá linda, o chopp tá bom, vamos pegar um motelzinho?

– Ahh, vamos.

Firmeza! Entramos no Chevettão, ele deu aquela reateada "nhénhénhénhénhém", subiu aquele cheirão de gazolina empesteando o cockpit e Vruuummmm, em 15 minutos ou menos já estávamos adentrando o Del'Rio, O MOTEL MAIS FULEIRO QUE EU JÁ FUI NA VIDA, juro, daqueles que o rádio é Audiovox de fita cassete de carro ligado por uma gambiarra de fio aparente sumindo por trás da cama, medo da porra de tomar uma desfibrilada no ato do coito. Liga só a recepção: parei o carro na guarita e:
– Boa noite, uma suíte, por favor?
– 20 real o pernoite (assim no singular mesmo).
– E o que a suíte contempla?
– Garagem.
Boua! Vai essa mesmo que o bagúio tá estorando a tanga. Pedi duas Brahma, assim no singular mesmo, e toca o rala e rola. Quando a gente tava finalizando o rala, prestes a entrar efetivamente no rola, peguei o pacote de "Leve 8 pague 6" Olla e a digníssima me dispara essa, um dos diálogos mais malucos que eu já tive na vida. Diálogo não, quase-monólogo, porque eu só conseguia balbuciar pontos de exclamação e interrogação:
– Eu não quero transar com camisinha.
– ?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?
– A gente pode transar sem camisinha?
– ?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?
– É que eu tenho medo...
– ?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?
– É, medo... tenho medo de engravidar...
– ?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?
– É, vai que estoura... eu tô mais acostumada que gozem fora...

Depois de pensar 2 minutos sobre esas última frase (detalhe: se um ariano pensa por 3 minutos ou ele vira Prêmio Nobel de alguma coisa ou ele faz uma burrice muito grande), bom, depois de matutar sobre isso, expliquei direitinho sobre o fabuloso mundo da camisinha e da proteção contra doença venérea e que se colocar direitinho a porra não estoura não e tudo o mais, o que era pra ser felação virou falação, e da falação para o "melhor a gente ir" foi um pulo. Nos recompusemos e fomos pro Chevettão. Ao chegar-mos lá, abri a porta pra ela, como manda a minha boa educação européia, entrei, sentei, girei a chave na ignição e naaaada! Nem um "nhénhénhém", nem um "TRUNK", nem uma luzinha acesa no painél, nada, zero. Girei de novo e o carro no maior silêncio. Olhei bem pra cara dela e mandei:
– Fulana, você sabe dar tranco?
– Não, eu não sei dirigir...
– Hmmmm...

Teve que empurrar o Chevs no motel, tadinha. Mas foda-se, quem mandou ser lôca? O pior é que o espaço para o carro pegar embalo era curto, e ela teve que empurrar vááááááááárias vezes, de frente e de ré pro motor dar uma esquentadinha, e nem pra um sujeito sair do quarto pra dar uma força. Lógico, só o professor de sexologia aqui que ficou na teoria, mas foi uma boa vingança por conta do papo aranha da camisinha, os cafagestes e as feministas que me desculpem.

Passado uns três meses dessa malfadada missão, tô eu indo na casa de um amigo, e acabo por encontrar com ele pelo caminho:
– LUIZÃO!!!
– IVAN!!! (o nome foi trocado pra preservar a pessoa, rárárá!) E aí, tava indo na sua casa! Cuméquié!
– Mano, cê não sabe quem tava em casa agora a pouco!
– Quem?
– A Fulana!
– Ahh vá! É memo?? E aí?
– Mano, cê num sabe: tava lôco pra cumê ela, gostosa pa poooorra mano, trombei com ela pelo caminho, conversa vai, conversa vem, levei ela pra casa. Quando fui pra cima forte, ela "não quero transar com camisinha não!" MANO, mina lôca da porra!!!!! Disse que tinha medo de engravidar!!! Falei pra ela "que porra é essa de engravidar com camisinha???" Ela disse que tinha medo de estorá... Luiz, comi não Luiz.

Passado um ano e meio maomeno dessas malfadadas missões, encontro Fulana na rua, felizona empurrando um carrinho com um bebê gorducho fofucho e pequerrucho dentro, ao lado do marido não tão felizão assim.

14. VIXI... - FILHO VIADO


Não sei qual é a de algumas pessoas que eu ouço dizendo "Deus me livre meu filho nascer gay". Não me entra na cabeça esse tipo de machismo, inclusive das mulheres, ainda mais nos dias de hoje, onde as relações pessoais são tão carentes e o mundo pirou, com pais matando a filha pequena, neguinho sequestrando os outros e matando por cinco merréis, fora as guerras pelo oriente médio e tudo o mais. Quer dizer, guerra e homossexualismo sempre existiram, acho que até essas atrocidades todas sempre existiram também, mas agora a gente fica sabendo disso tão rápido que assusta. Lembro que uma vez eu ouvi dizer que, quando assassinaram o presidente Lincoln, lá nos Estados Unidos em mil e sei lá quando, os europeus demoraram treze dias para ficar sabendo. Hoje, em meia hora você já tem o vídeo no youtube com o making of da treta, perfil do assassino, perfil do assassinado, tudo o que o cara fez na vida, campanha pro show beneficiente em memória do morto e em prol das vítimas de assassinatos e um monte de gente provando que o cara não foi assassinado nada, é tudo conspiração pra desviar atenção pro real problema. Seja ele qual for. Mas enfim, no meio disso tudo, o povo se preocupa se o filho vai nascer gay. Pô, que se foda! Ducarai se meu filho...(pô, um aparte aqui: seja homem ou mulher, tá? É que é um saco ficar escrevendo "filho(a)", ou "filha(o)", então vamos combinar assim: uma hora eu falo no masculino, outra no feminino. É que por incrível que pareça, as pessoas sempre temem o HOMEM virar gay, até no preconceito a mulherada se fode), enfim, dane-se se minha filha virar gay, melhor alguém amando alguém do que matando alguém. Não vai ser menos amado, não vai ser castigada, não vai ser menos protegido e nem mesmo sofrer com preconceito sem encontrar um alento e reação do paizão aqui. E o namorado (ou namorada) vai ser tão bem-vindo na família quanto qualquer outro, e vai ser tão respeitado como qualquer outra pessoa que se dê ao respeito e seja boa pessoa e seja boa gente também, porque ninguém merece genro chato, seja homo ou hétero. Eu ia dizer aqui que tenho um monte de amigos gays, mas não é verdade, fazendo um exame aqui na memória não tenho amigos gays, mas tenho colegas de trabalho, colegas de jogos de basquete, vizinhos, enfim, um monte de gente a minha volta são gays e mesmo não sendo amigos, sinto muito orgulho dessas pessoas e tenho um grande prazer em conhecer essas pessoas, porque são boas pessoas e pessoas corajosas em se assumir e lutar contra a corrente da falsa moralidade.
Dias desses eu tava conversando com uns amigos no bar (resistindo veementemento aos chopps) e surgiu esse assunto, filho nascer gay ou viar gay, ou o povo gay que torra o saco. Só aí atinei pra uma coisa, e dá-lhe filosofia: é o seguinte, Homossexual é o termo científico. Homens ou mulheres que optam por se relacionarem com pessoas do mesmo sexo são homossexuais. Dentro disso, tem os gêneros, e aí que me perdoem as mulheres, mas vou tratar só dos homens por enquanto: se meu filho virar gay, sensacional. Provavelmente vai ser publicitário, advogado, diretor de cinema ou ator, ou de teatro ou televisão, escritor, filósofo, professor, enfim, qualquer profissão que tenha que manter uma certa seriedade ou se expor muito. Provavelmente vão ganhar bem e sempre vão poder emprestar uma grana "panóis", quando no perrengue. Se meu filho nascer bicha, bão tamém. Vai ser meio pobrinha né, mas beleza, vai ter iniciativa e empreendedorismo, vai abrir um salão de cabeleleiro, ou vai ser promoter, enfim, qualquer profissão que aceite uma pessoa completamente desvairada. E outra, as bichas são divertidas, extrovertidas, têm o pensamento rápido e as melhores tiradas que eu já vi. Saca só, um dia o Flávio (meu brotherzasso!) me falou tava no salão do Germano, uma bichona gigante e gente finíssima que jogava basquete com a gente lá na vila, esperando a vez pra cortar o cabelo. O Germano tava meio sem voz, mas mesmo assim não parava de falar. Daí uma tiazinha assuntou:

– Noooossa Germano, você tá tão rouco....
E ele:
– Aaaaai menina, liga não, é cabelo de saco nas cordas vocais...

Sensacional!, o salão inteiro veio abaixo, a tiazinha gagejou, ruboreceu-se e rapou fora!

Certa feita eu tava numa balada, no banheiro dando um mijão, pá, daí entrou uma bissinha bem bissinha esteriotipada, magrelinha, me deu uma medida de cima abaixo e disparou:

– Nóóóóóssa, como você é altão, chupo seu pau a-go-ra!
Eu só ri e falei:
– Pô man, frase certa, sexo errado, desculpaí.
E ela:
– Masssszzzzzgina, boca não tem sexo!
Rachei de rir e rapei fora rapidim também, rárárá.
Racho o bico com as bichas, se meu filho virar bicha vai ser engraçado.

Agora, se meu filho virar viado, aí vai ser foda.
Aí não, pô... Filho viado ninguém merece.
Quer dizer, vou amar também, vai ter tudo o que eu puder dar, vai ser protegido e tal... mas pô, ter filho viado é sacanagem.
Já pensou você chega do trampo tranquilo, e daí você fica sabendo que seu filho levou a bola dele embora porque ele é perna-de-pau e não foi escolhido pra jogar. Quer dizer, beleza, o moleque pode ser ruim mesmo, daí você vai lá e tenta ensiná-lo a dar uns chutes, aí ele não consegue, faz birra, malcriação, diz que você é que não sabe ensinar, você vai lá, coloca a bola no chão, mostra como se chuta, ele dá uma bicuda, a bola bate na parede e volta no nariz, pronto, fodeu, chora desesperado, chama a mãe dizendo "ôôôôôô mããããããããeeee, ó o que o pai feeeeeeezzz", aí sua mulher já chega te chamando de bruto, que você não tem paciência com o Júnior (que ela quis que fosse Júnior), aí você já tá puto com seu trampo e com seu chefe babaca (que por acaso TAMBÉM se chama Júnior...), levou duas horas pra andar dois quilômetros, daí você com tudo isso na cabeça manda sem querer "Ahhh porra, esse moleque tá muito viado!!!!", pronto, tá instaurado o desquite.
Daí o moleque cresce e vira aquele cara que fica puxando seu chapéu na balada, afundando sua cadeira no trampo, desligando seu telefone quando você acaba de discar, canta todas as mulheres do trabalho e diz que comeu todas, arruma uma namorada com tio dono de agência de viagem só pra conseguir desconto na passagem, e termina o namoro dias antes de viajar, fica te enchendo o saco no msn...

NOTEM: viado não necessariamente é homossexual, pode ser hétero o quanto for.

Viado é estilo de vida.

Leva a bola embora? Viado.
Vive querendo levar vantagem? Viado.
Não cumpre com a palavra? Viado.
Fala que come todas? Viado.
Se aproveita dos mais fracos? Viado.
Sacaneia pra subir na vida? Viado.
Não dá carona? Viado.
Não passa cola? Viado.
Não segura os B.Os? Viado.
Foge da briga? Viado.
Fica com frescura? Viado.
E por aí vai, existem um monte de viados por aí, Deus me livre ter um filho viado.

Dia desses fiquei sabendo de um dono de agência que foi conversar com uma menina que já tinha acertado com o diretor de criação de começar na próxima segunda. O cara falou "O QUE??? COMO ASSIM COMEÇA NA PRÓXIMA SEGUNDA? NINGUÉM ENTRA NA MINHA AGÊNCIA SE NÃO PASSAR POR MIM, E AQUI VOCÊ NÃO TRABALHA!"

Porra, PUUUUUUUTA viado!!! Esse, por acaso, é homossexual, mas já vi muitos outros que não. Numa agência que eu trabalhei, viramos a noite trampando, fizemos uma série de campanhas pra uma universidade, com aprovação do diretor de criação e tudo. Tava todas as peças grudadas na parede da agência, o cara chega de manhã, no final do processo e sem ter participado do começo e manda:
– Não é nada disso, não gostei de nenhuma.
Fui defender que elas estavam todas dentro do briefing, o cara só vira as costas e diz:
– Viu, FULANO (o diretor de criação), não é nada disso.
E sai andando.
Caralho, quase soco o filho-da-puta. Aliás, filho-da-puta não, VIADO. Inclusive tinha nome de fruta, rárárá! (Sorry, não resisti). Esse aprontou vááááárias, é a Vossa Viadesa em pessoa.

Mas enfim: Homossexual, gay, bicha, travesti, transsexual, bissexual, tudo tranquilo pro meu filho; agora viado não. Nem fodendo.

Mas então, falei dos homens, agora das mulheres: se minha filha virar lésbica, sensacional! Afeminada ou masculinizada, tranquilo também, desde que ela (e isso vale pros homens também) cuide do corpo e não o desrespeite, (isso quer dizer fazer o que se quer com o próprio corpo, não o que NÃO quiser). Claro que a gente tem que impor alguns limites, ainda mais quando a pessoa não atingiu uma maturidade, mas depois de velha, o que um pai ou mãe pode fazer a não ser aconselhar e rezar?

Mas é engraçado, não me lembro de nenhuma lésbica BICHA. No geral, as lésbicas são muito sérias. E não tô aqui fazendo nenhuma crítica ou sendo preconceituoso nem nada, mas meu!, eu tenho medo de lésbica, confesso! As minas estão sempre na defensiva, a maioria que eu conheço pelo menos são assim. Mas tem um motivo: os VIADOS estão sempre querendo pegar a companheira da outra. Não se conformam que uma mina prefere uma mulher do que um homem, e não se conformam mais ainda que uma mulher prefere outra mulher e não ELE. Daí as entendidas, já conhecendo a espécie, ficam mesmo na defensiva. Já vi um ou dois quebra-paus em balada, de mulher querendo socar um cara que ficou mexendo com a mina dela, macha pra caralho!! Certa ela, tem que defender mesmo, porque alguns homens sempre acham que duas mulheres se pegando é sempre putaria, e não um relacionamento sério. Tão sempre querendo se meter no meio pra comer duas, o eterno fetiche masculino. Homem vive fazendo merda, é impressionante, por isso que eu detesto homem, só gosto de mulher. Agora, devo confessar: beleza, eu entendo todo esse lance de relacionamento, respeito muito as lésbicas, acho que qualquer maneira de amar vale a pena mesmo, não fico cantando mulher de outra, sigo o 11º mandamento: "Não cobiçarás a mulher da próxima". Mas que é um tesão duas minas se pegando, isso é. E se elas forem bem gatas então, aí é que dá vontade de se meter no meio mesmo. Desculpa, não sou tão politicamente correto assim, e a carne é fraca. Agora, seguro a onda né? Afinal, querer comer duas minas só pra pagar de gatão, e arrumar uma puta treta, é coisa de viado.

14. VÁRIOS QUILOS - PRA TENTAR TE ESQUECER


Você me mandou te tirar da cabeça
Não daria certo, é melhor que eu te esqueça
Por mais duro e doído que isso pareça
Pra que não aconteça d'eu ter que sofrer

Sem ter mais resposta ou sequer argumento
O meu travesseiro virou meu alento
E pra curar de vez esse meu sofrimento
Segui atento a receita da minha Vó

Que diz que "remédio pra amor violento
É dormir bem quietinho, que de noite o vento
Sopra mansinho pra longe o tormento
Leva tudo embora e de dia, sem dó

Quando o galo canta, o sol se levanta
Um café bem fresquinho queimando a garganta
Espanta a tristeza, e a paixão que foi tanta."
E assim minha Vó me fez prometer:

"Só acordar depois de te esquecer."


*****************

O Brasil virou super-potência
Os Estados Unidos é só decadência
A ciência curou tudo quanto é doença
E a falência do euro não afeta a exportação

O meu time é deca-campeão
Na caatinga arroz brota do chão
Nunca mais teve corrupção
A nação dá até gosto de ver

Tem comida pra dar e vender
Água a rodo pro mundo beber
As florestas voltaram a crescer
E não tem mais criança no mundo
[que não saiba ler

Cem anos depois que eu dormi pra tentar te esquecer.


*****************

Na Etiópia não existe mais fome
Mao-Tsé já não passa de um nome
A China agora de tudo consome
E o homem esqueceu o que é preconceito

Todos têm seu devido respeito
O poder da justiça agora é perfeito
O imposto cobrado retorna direito
E o conceito de paz hoje é infinito

Ninguém mais resolve o problema no grito
Não existe mais jovem cometendo delito
A violência hoje em dia não passa de mito
E não tem mais conflito pra combater

Mil anos depois que eu dormi pra tentar te esquecer.


*****************


Quando todos já podem voar sem ter asa
Os robôs fazem todo o serviço de casa
Viajar pelo espaço não é mais coisa da Nasa
Eis que vaza a notícia impensável:

A riqueza terrestre, quase inesgotável
Está num estado totalmente deplorável
O término do mundo é inevitável
É incontestável a chegada do fim

Alguns conformados vão pra um botequim
Outros não querem terminar assim
E eu ainda sem poder retornar a mim
Continuo na cama sem nada saber

Quinhentos mil anos depois que eu dormi pra tentar te esquecer.


*****************

A terra enfim explodiu
Foi todo mundo pra puta-que-pariu
Mas teve um fenômeno que ninguém viu
Nem quem partiu em nas naves de aço:

Meu corpo lançado no espaço
Mesmo com o tempo escasso
As camadas orbitais ultrapasso
E salvo me faço da extinção do planeta

Me transformo agora em cometa
Com núcleo, corpo e rabeta
E como um astro de estranha silhueta
Risco o céu de um planeta distante

Iluminando estranhos amantes
Que interrompem seus beijos ofegantes
Fazem juras de amor com vozes destoantes
E seus olhos mutantes buscam o céu só pra ver
O cometa que dorme ainda pra manter
A promessa que sua Avó o fez fazer

Bilhares de anos depois que eu dormi pra tentar te esquecer.

13. VÁRIOS QUILOS - MULHERES MARAVILHOSAS


É impressionante como mulheres muito bonitas estão sempre com cara de entediadas. Não tô falando das bonitinhas, nem das bonitas, e sim das muuuuuiito bonitas.
As gatas.
As fodas.
As lindas.
As chatas.
Porra, mulher muito bonita deve ser um porre de chata, uma merda pra se relacionar, imagina passar a vida toda ao lado de uma mina linda e chata. Deve ser um tal de não pega aqui, não aperta ali, não toca acolá, arre égua, valei-me Deus. Nunca vi uma mulher linda de morrer com um leve sorriso na cara, andando pela calçada com aquele solzinho no rosto num sábado a tarde, cabelos e vestidos balançando ao vento. Nada, tão sempre com uns putas óculos escuros tapando o rosto todo, andando com pisada forte e olhando pro chão. Provavelmente procurando o umbigo. E é impressionante como essas mulheres lindas reparam nas outras mulheres lindas, são mais competitivas que os Argentinos em final de copa, e devem catimbar tanto quanto. Tô pra ver ainda uma mina dessas dar um carrinho em outra no meio da Paulista porque a outra tava com o sapato mais bonito que a uma, ou uma cotovelada porque o cabelo da uma tava mais bem cuidado que o da outra, POW, no nariz.
Claro que há excessões, e a excessão se chama Ana Hickmann(é, essa aí da foto mesmo). Aninha, como gosto de chamá-la na intimidade, tá sempre de boa, sempre simpática, nem em foto de anúncio de perfume, daqueles que a gente não entende nada, mesmo séria ela passa uma simpatia. (Qualquer mulher aí que possa estar falando que a Aninha não é lá isso tudo pode ir andando para a puta-que-pariu, deixo claro.) Mas tem um lance aí: a mulher é rica, né? Rica não, RICA. Acho que é isso, as mulheres lindíssimas que eu vejo andando por aí é tudo linda e pobre, por isso o tédio, a cara de chata, devem estar pensando "ai que saco, sou linda e pobre, não aguento mais tomar cantada de pedreiro e de feirante".

Vocês devem estar pensando que eu tô injuriado porque eu devo ter tomado um fora de uma mulher linda, né? Mas nem é, primeiro pelo seguinte: eu nem chego junto que eu sei que é fora na certa, feião na foto como sou. Segundo: não suporto gente chata, gente chata irrita, e eu até admito que as pessoas me decepcionem, me traiam, puxem meu tapete, mas pelamordeDeus, não admito que me irritem, e gente chata tem esse poder. E outra, vai que eu chego na mulé, jogo um xaveco furado e cola, e depois de um mês ela vira uma vaca? Eu hein! Pior que sacar que uma mina é chata de cara, é ela se metamorfosear depois de um tempo, depois que vc conheceu a família, pai, mãe, irmãos, a casa na praia ou o sítio ou sei lá. Meu maior medo, juro, num casamento, não é que a mulher engorde, que tenha estria, celulite, sei lá, qualquer coisa dessas. Meu medo é que ela vire uma vaca chata da porra, Senhor, ninguém merece gente chata, gente que não ri de si mesmo, gente que põe defeito em tudo o que a gente faz, gente que não goste de sair, de ir pra balada, de viajar, de se divertir um com o outro e consigo próprio.

Como diria o poeta, "beleza é fundamental". Mas muuuuuiiiita beleza acrescida de chatice, tô fora.

terça-feira, 22 de abril de 2008

12. (NÃO SEI QUANTOS QUILOS) - TERÇA-FEIRA



(Tô atrasado em 4 posts, e tô trabalhando nisso, juro! Mas esse eu tinha que postar rápido)

Isso tudo logo pela manhã, só com um suco de laranja no estômago. Respirem fundo: cheguei na academia, primeiro dia, e estranhei o banquete armado, puuuuuta café da manhã com bolos, brigadeiros, beijinhos, refrigerantes e frutas e outros doces, achei meio esquisito uma recepção assim, mas vá lá, a moça cadastrou minha digital e me mostrou onde era o vestiário, tranquei as coisas no armário, subi pra conhecer o professor, e o cara me comprimenta no maior sono, nem diz o nome, só pergunta "está fazendo alguma atividade física atualmente?", eu respondo que não, ele me dá uma medida de cima abaixo, daí entrego a avaliação física pra ele, ele dá aquela olhada, enrola os papéis, olha pra mim apertando os olhos e só sinaliza pra eu subir as escadas, subo, paramos em frente à parede de alongamento, ele se posiciona e sem falar nada me mostra o que fazer: coloca as mãos pra trás, trança os dedos e força os braços pra baixos, eu faço e fico por lá, e ele tbm fica por lá dando um rolê, estranhei pq esses professores normalmente de manhã já estão no pique, dizendo o que vc tem que fazer, pra que serve o exercício e tal, mas esse tava foda: olhando pra tudo com aquela cara de "onde eu tô", depois de uma terça-feira pós feriado, e ele ficou lá enrolando, e eu lá com os braços pra trás alongando, depois de mó cara, ele volta, eu pergunto se tô fazendo certo, ele só olha pra minha cara tentando entender, eu digo "meu, você precisa me dizer o que fazer...". ele na maior dificuldade, olhando pra mim tentando focar, trança os dedos novamente e ergue os braços na altura do peito, "faz isso", e dá umas engolidas a seco, fecha os olhos apertando bem, chacoalha a cabeça e sai de rolê de novo, daí eu faço o que ele me manda e fico lá, na minha, e o mano de rolê fica andando meio cambaleante pela academia, esfregando os olhos, daí teve uma hora que ele parou em frente a uma garota que tava fazendo uns exercícios no chão, fechou os olhos e cambaleou, cambaleou, foi pra frente, pra trás e quase cai em cima da mina, saiu de lá e veio pro meu lado (eu ainda estava com os braços erguidos, alongando), falei pra ele "brow, não sei o que você fez, se foi pra balada, se tá bem lôco, se voltou de viagem agora, mas meu, dá um tempo, toma um café ou uma coca-cola que tá feio pra você, você tá dormindo em pé, tá cambaleando, quase caiu em cima da minazinha ali, tá todo mundo vendo", e ele olha pra mim meio puto, os olhos faiscando, pensei "pronto, fodeu, arrumei treta com o professor de musculação", mas aí ele fecha os olhos novamente bem forte e sai de rolê de novo, pensei "porra, esse mano tá de sacanagem, vou trocar de professor, puta babaca do caralho, não quer trampar, sai da academia!, vai procurar outro melhor, porra, fica fazendo a gente de otário, vem trampar zuado...", tava puto já, só de imaginar que ia ter que ir até a recepção reclamar do cara, tretar, xingar... dei aquela respirada, desencanei do alongamento e fui até a janela pensar que academia é uma merda, academia 7 da manhã é pior ainda e com um instrutor com cara de boy então, que não tá nem aí pra porra nenhuma, tudo isso antes do café da manhã, é de foder, daí vem a recepcionista correndo, segurando o cara e levando ele até o canto, arruma um colchonete no chão tentando fazer com que ele se sentasse, "senta Maicon, senta meu, pô, você não tá legal, sentaí meu...", e eu olhando aquela porra toda, "senta vai, pelamordeDeus", a mina tava meio desesperada, e o cara olhava pra cara dela com um puta sorriso abobalhado, tentando focar a mina, ela forçava ele a sentar e ele não sentava, aí fui lá perguntar se ela precisava de ajuda e já fui dizendo também pro mano sentar, "sentaí brow, você não tá legal, dá uma relaxada...", e a mina olha pra mim e diz "ele é diabético" carai, aí bateu um medão, o cara tava tendo uma crise de diabete meu! , e a mina pedia pro cara sentar e ele não sentava, daí o segurei pelas pernas e dei um tombo nele, ele sentou e chegou outra mina: "MAICON, MAICON, GENTE TRÁS AÇÚCAR, TRÁS ALGUMA COISA DOCE!", daí a recepcionista saiu correndo, o cara ficou lá de cabeça baixa e a gente meio que segurando ele, a mina voltou com uns doces que estavam na mesa e começamos a enfiar na boca dele. (é estranho, vocês podem achar, porque diabéticos normalmente não podem comer açúcar, mas tem um lance que acontece da taxa do açúcar cair pra caramba e o cara tem que ingerir rapidamente um chocolate ou qualquer coisa doce, tentei pesquisar na net, mas tô sem tempo), a mina da recepção disse pra outra que ele não queria que ela o visse daquele jeito, deduzi que eram namorados - e eram mesmo, pq ela disse que já tinha visto isso acontecer, e ela foi buscar a bolsa dele e eu fiquei lá, a minazinha tava desesperada, e o cara ainda tava revirando os olhos, mas começou a tatear a bolsa procurando alguma coisa, e a gente abriu a bolsa dele e começamos a mostrar tudo o que tinha lá pro mano, e ele balançava a cabeça negativamente, até acharmos um envelopinho de aspirina, ele balançou a cabeça afirmativamente, eu peguei uma, coloquei na boca dele e dei um suco que trouxeram lá, e ele começou a melhorar, então a mina da recepção me encontrou no caminho, agradeceu e disse que tava preocupada porque eles têm que manter isso escondido do dono da academia, porque o intrutor precisa muito do trampo, e tava todo mundo vendo, falei que tava tranquilo e desencanei de academia, fui tomar um banho e quando tô me vestindo, começa uma cantoria de "parabéns pra você"; saí do vestiário e tava rolando a festa de aniversário da recepcionista, o instrutor tava lá já batendo palmas e cantando, olhou pra mim e "pô brother, valeu, desculpaí... quando você volta?", disse que voltaria no dia seguinte, a mina ainda pediu pra eu ficar na festa mas agradeci e rapei fora, parei num lugar chamado Bagdá Café (como no filme), pedi um pão de queijo e um café puro pra dar uma acordada, e fiquei assistindo a Ana Maria Braga entrevistar uns psicólogos e especialistas sobre o caso da menina Isabella e a reconstituição do crime: alguém (sabe Deus se foi o pai ou a madrasta) estrangulou a menina com as mãos até ela quase desmaiar, (segundo o cara, nessa ela já não tinha chances de sobreviver, a não ser que tivesse sido feita uma respiração boca a boca), e tinha uma perfuração acima dos olhos dela de 5mm por 4mm de profundidade, provavelmente causada por uma chave ou um anel, daí ela foi, segundo as manchas de sangue pelo chão, arrastada até a varanda onde, segundo a perícia, foi arremessada violentamente contra o chão da varanda, antes de ser atirada do sexto andar do prédio onde morava, depois um outro especialista mostrou algumas fotos de outras crianças torturadas pelos pais: um com uma queimadura de ferro quente no rosto, outro com marcas de cordas nos pulsos e na boca, outro com queimadura de cigarros nas mãos, e alguns espancamentos, daí peguei o metrô lotado, e duas minazinhas brigando porque a de trás empurrou a da frente porque queria que ela entrasse mais no vagão, mas não adiantava porque o vagão tava lotado, e as duas ficaram discutindo sobre isso até
que uma disse "olha, eu não sou mais criança, conversa aqui com a minha mão!", mas o foda é que, de tudo isso, o que me deixou mais mal foi o fato d'eu ter julgado que o instrutor, que tava com uma crise de diabetes, tinha ido pra balada à noite e tava zuado por isso, amanhã peço desculpas a ele, porque não tem desculpa pra minha insensibilidade mas nem encano muito porque, no final, Deus, se Ele existe, vai mandar toda a humanidade para a porra do inferno, mas acho que tudo seria menos pior se eu não tivesse com rinite.

domingo, 16 de março de 2008

11. 114kg - 21 DE MARÇO A 20 DE ABRIL


Ser ariano é tanto motivo de orgulho quanto uma sina. Orgulho porque tudo o que falam de arianos é verdade: somos líderes natos, agimos de maneira impulsiva mesmo, somos guerreiros, somos intensos, somos sinceros (não francos), somos independentes, somos justos. E é uma sina exatamente pelas mesmas coisas. Eu acho engraçado quando alguém pergunta de que signo sou, porque normalmente quando eu digo "sou de áries", a pessoa solta um "ishhhh", ou um "afffffee", ou até mesmo um "Deus me livre...", mas poucos na verdade entendem um ariano, acho que só nós mesmo nos entendemos. Porque, no final, como já fizeram nossa fama, acabamos aos poucos nos deitando na cama do imaginário popular. Mas acreditem, cada motivo de orgulho tem seu outro lado.

Como somos líderes, mas não líderes burocráticos, e sim os que tomam a frente das batalhas, sempre tomamos o primeiro tiro. Arianos são eternos buchas-de-canhão. Mas não caimos fácil, e mesmo tomando o primeiro golpe, nos sentimos felizes por termos protegidos o camarada que vem atrás. Mas que nos fodemos primeiro, é verdade.

Como somos impulsivos, as pessoas acham que agimos sem pensar. Mas não é: é que pensamos e tomamos decisões em uma pequena fração de segundo. E essa decisão, mesmo sendo pensada de maneira rápida, é absoluta: temos certeza da nossa convicção. E quando erramos, assumimos nossos erros com tanta impulsividade quanto tomamos decisões. "Eu errei" ou "eu assumo a culpa" são frases naturais quando realmente erramos, e essa naturalidade assusta e irrita, porque parece que estamos desafiando, tipo "eu errei, e aí?", mas não é; na verdade é "eu errei, eu me desculpo e estou pronto para aceitar uma punição justa." Quantas pessoas aceitam uma punição com naturalidade?

Como somos guerreiros, lutamos até o fim. Quando vencemos, vencemos e comemoramos. Mas quando somos derrotados, o que se vê é uma retirada orgulhosa, de cabeça erguida. Mas vocês não gostariam de ver a real imagem de um ariano derrotado. Não é que ficamos furiosos nem nada, pelo contrário. Como disse, lutamos até o fim, até exaurirmos nossas forças, até o fim da guerra. O que vocês acham que sobra no fim? Assumimos uma postura orgulhosa para proteger vocês dessa visão, pois só nós conseguimos suportá-la. Essa drama permanece interno, até porque temos consciência de, se formos ficar falando ou demostrar o que sentimos, vai ficar parecendo um dramalhão mexicano, e detestamos parecer melodramáticos demais. Temos senso do ridículo, quando é sério. No geral, somos bem palhaços.

Uma outra característica que sempre falam do ariano é o desinteresse repentino por alguma coisa: uma hora viramos as costas e saímos andando, deixando tudo pra trás. Mas o que não falam sobre isso é o seguinte: como somos guerreiros e lutamos até o fim, e quando finalmente algo chega ao fim, o que resta mais a fazer? Já falamos tudo o que tinhamos pra falar, já fizemos tudo o que tinha pra ser feito, tentamos de todas as maneiras, argumentamos, damos soluções. Se não adiantou, o que mais podemos fazer? Fim é fim. E fim.

Somos muito românticos, românticos incorrigíveis, e quando estamos a fim de alguém, deixamos isso bem claro e usamos de todos os argumentos e artimanhas pra conquistar essa pessoa, e às vezes até assusta, pois um encanto pode tomar proporções de uma graaaande paixão. E se for correspondido, vira mesmo, mas se não rola, é porque não tinha que rolar mesmo, certo? E daí largamos de mão, porque, afinal, nem a gente atura ficar enchendo o saco de alguém por muito tempo, ficamos nós mesmos de saco cheio. Algumas dessas pessoas ficam guardadas em nós, por uma série de fatores, e podemos nos apaixonar novamente por elas a qualquer momento de nossas vidas, mas outras ficam só na memória.

Somos tão intensos que eu acho até que arianos não reencarnam, embora eu li dia desses que são os piscianos que estão na última vida. Parece até que temos só uma vida, por isso a vivemos plenamente, porque quando ela chega ao fim, é fim. Amamos demais, festejamos demais, exageramos demais, falamos demais. E quando sofremos vocês acham o que? Que sofremos um pouquinho? Pois prestem atenção: quando sofremos, sofremos MUITO. Quando dói, dói MUITO. Quando choramos, choramos MUITO, até cansar. É que a gente não mostra por conta do dramalhão que eu falei lá em cima. E quando você liga pra um ariano que você sabe que tá mal, pra dar uma força e tal, e ele responde que "ahh, tô naquelas, meio mal ainda mas vai passar", pode ter certeza que estamos TÃO NA MERDA que não queremos nem ficar falando. Tudo em nós é potencializado, somos eternos adolescentes, e quando algo de ruim nos acontece, quando ficamos solitários, tristes, deprimidos, furiosos ou nos sentimos fracassados, tudo isso vem MUITO. Tanto que nem a gente mesmo aguenta, daí rapidinho damos um jeito de nos livrarmos disso.

Podemos até perdoar traição de relacionamentos afetivos, mas traição de amizade é o PIOR tipo de traição que podem cometer contra a gente, por isso é que somos seletivos com as amizades, pois somos leais. E quando odiamos, não é ódio, é pior, pois quando há ódio, ainda há sentimento. Nós simplesmente apagamos da memória. Amamos demais, mas não odiamos demais: a indiferença é o ódio do ariano.

Como somos sinceros, não conseguimos controlar isso. Até tentamos rodear, procuramos não magoar, afinal não somos francos, pois a fanqueza machuca, e a sinceridade não. Podemos dizer "palavras duras com voz de veludo", como diz a música, mas cinco minutos depois pensamos "catzo, não deveria ter dito assim..." mas já foi, bola pra frente. Mas isso vale também quando soltamos um elogio, o que é bom, afinal, é verdadeiro.

Somos independentes, e tanta independência, uma hora, se transforma um pouco em solidão. Arianos vivem se sentindo meio solitários, afinal não somos fáceis e por isso ninguém atura muito. Temos consciência disso e procuramos nos bastar, mas chega uma hora que cansa. Então nos tornamos melancólicos, um tanto fechados, um tanto introspectivos. Mas logo passa, e recomeçamos o ciclo. E como é um ciclo, daqui a pouco estamos nos sentindo solitários novamente. E assim vai.

Áries é regido por Marte, o planeta vermelho, o deus da guerra, e daí vem o gosto pela cor vermelha e por uma boa briga. E brigar com ariano é sempre uma boa briga, porque como somos justos, nunca batemos em um oponente caido, e ao contrário do que pensam, não usamos de meios torpes para conseguir o que queremos. Só lutamos com muita intensidade e não desistimos fácil. Mas quando desistimos, desistimos.

E quanto a essa tatuagem aí que vocês estão vendo na minha perna, foi o seguinte: sai de casa pra comprar UM livro e UMA luminária pro meu quarto novo na casa nova (vou falar sobre isso mais tarde). Acabei comprando 3 livros, 3 camisetas, 2 chocolates diets (o plano segue conforme o combinado), e fiz essa tattoo. E como disse, sofri MUITO quando chequei o saldo da minha conta na segunda. E a luminária? Que nada, luz de velas é bem mais romântico. Sabe como é, coisa de ariano...

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Foto: Auto retrato, tocando What's Going On, do Marvin Gaye, no baixo. Tá foda pra tirar essa música.

Ahhh, e parabéns pra Paula Cravo e pro Claudião (dia 26), pra Thalita Froes (dia 27, junto comigo), pro Rodrigo Brizzi e pra Juliana Reis (dia 28), pro Reinaldo Carioca (dia 11 de Abril) e pra todo mundo que eu me esqueci.

quarta-feira, 5 de março de 2008

10. 114kg - MESMA ESPÉCIE


Todos conhecem, ou a maioria das pessoas pelo menos, ou não... enfim, muita gente conhece Frankenstein, o personagem criado por Mary Shelley, imortalizado pelo cinema hollywoodiano por Bóris Karloff, Bela Lugosi e, mais recentemente, há uns 14 anos atrás, Robert DeNiro. A imagem que se criou ao longo dos anos de Frankeinstein é a imagem de Bela Lugosi travestido num monstro vilanesco, descerebrado, motivado apenas pela vingança, gigante e grotesco, concebida pela genialidade louca de Victor Frankeinstein, um brilhante doutor com devaneios de superar a barreira da morte. Mas a história do monstro de Frankenstein é na verdade um maravilhoso e amargo tratado sobre a solidão, sobre a interação com o próximo, sobre nossos preconceitos. O monstro criado por Victor Frankenstein de fato "nasce" grotesco, remendado com partes dos corpos roubados dos cemitérios, um gigante com mais de 2,40m de altura. Um aparte interessante: nada de tempestades de raios com fios ligados ao cérebro do monstro, isso é coisa que o cinema precisa para um melhor efeito visual. No livro, a tempestade existe, mas apenas uma injeção dá vida a ele. Retomando, o monstro de fato nasce com o cérebro revivido, mas vazio de conhecimentos, como todos os recém nascidos. Aos poucos, vai compreendendo tudo e a todos que o cerca. Vai adquirindo conhecimento, aprende a ler, adquire cultura e finalmente, após ser abandonado pelo seu criador, compreende sua condição: ele é único no mundo.

Único, não tem par.

De vez em quando eu penso sobre os relacionamentos das pessoas, revivo meus relacionamentos antigos, observo os finais das relações ou o porque de algumas pessoas continurem juntas mas numa rede de traições (de ordem sexual ou não), brigas tolas e desrespeito mútuo. Fiquei pensando também sobre como algumas pessoas permanecem sozinhas, mesmo tendo oportunidades de se relacionar com alguém, e são ao mesmo tempo tranquilas por fora, mas angustiadas por dentro. Cheguei a conclusão de que, para certas pessoas, o que falta é alguém como elas.

Iguais.

Da mesma espécie.

Eu acredito em relacionamentos que duram pra sempre, até porque eles realmente existem, se você procurar um pouquinho achará exemplos de pessoas que estão juntos a vida toda. Acredito em fidelidade também, respeito, pessoas que estão juntas por objetivos comuns, que são felizes um com o outro. Mas aqui, FELICIDADE, essa que todos lutam por ela, esse que é o mais paupável dos sentimentos, esse estado de espírito, essa sensação de prazer, o sonho que todos querem realizar na vida, é pouco. Porque, por mais que seja difícil achar alguém pra viver com a gente, convenhamos, não é uma tarefa assim tããããããão bicho de sete cabeças, como mostra a cada vez mais crescente população mundial. Você conhece alguém, essa pessoa lhe parece legal por uma série de signos que você inconscientemente identifica nela, ela os identificam em você também, começam a sair, as coisas começam a dar certo, vai ficando sério, vocês se apaixonam, vira namoro, se amam, noivam, se casam, têm filhos, e com uma dose imensa de paciência, braços torcidos, brigas, pazes, resignação, engolição de sapos e pequenas vinganças, sua vida passou, você olha pra trás e vê muita coisa construída, uma vida estável, filhos crescidos, netos, quiçá bisnetos, e chega a conclusão de que sim, você foi e continua a ser feliz. Morre saudável e tranquilo cercado das pessoas que mais te amaram e que você mais amou. Uma morte gloriosa, com choradeira, discursos, palavras bonitas de um padre, um belo e confortável caixão em um cemitério bonito naquele bairro gostoso onde você comprou sua linda casa. Todos no seu enterro também dirão que sim, você foi muito feliz, estará escrito na sua lápide, inclusive: "Aqui jaz uma pessoa que foi realmente feliz."

É bico.

Difícil é achar alguém da sua espécie.

Acredito que só alguém assim nos dá uma vida plena, em todos os sentidos, só ela preencherá cada espaço vazio em você, completará cada lacuna, trará não só felicidade, mas paz para entender os momentos infelizes e força para superá-los. Alguém que pensa como você, que age como você.

Que é você, em outro corpo.

Pequenas diferenças sempre existem em pessoas da mesma espécie, um gosta mais de uma cor, o outro gosta mais de certo tipo de música, um gosta de carne mal passada, o outro nem come carne... ou não, até nessas coisas eles são iguais, mas não é isso que os tornam da mesma espécie. É a maneira igual como enxergam o mundo e interagem com as coisas ao seu redor. É a relação pessoal igual com todos os eventos importantes que fazem parte da vida. A mesma maneira que recebem uma notícia ruim ou boa. A mesma maneira que agem quando estão no fundo do poço, e sobem. A maneira como lutam contra as injustiças, se levantam para defender ou ajudar a quem precisa, e como celebram as conquistas. Pensam a mesma coisa, se comunicam por telepatia, sabem o que o outro está pensando só pela maneira como respiram. Que se amam em cada pequeno ou grande gesto. Que não precisam perdoar, porque reconhecem em si mesmas os mesmos defeitos do outro. Que sejam imortais um no outro.

Iguais.

Essas pessoas existem. Elas estão entre nós, cruzam com a gente pelas ruas, tomam café ao nosso lado nas padarias, pensam a mesma coisa na mesma hora em países diferentes, sentem as mesmas vontades e tomam as mesmas atitudes simultaneamente a milhares de quilômetros de distância um do outro.

Muitas vezes acabamos encontrando essas pessoas de maneira totalmente ocasional, gratas surpresas cotidianas, e o mais comum de acontecer é nos tornarmos grandes amigos. Essa amizade durará para sempre, e mesmo o tempo ou a distância não os separarão. Mas amizade, como eu disse a uma amiga dia desses, não perpetua a espécie. E nem nos aquece de manhã, na cama, nos dias frios. Daí acabamos andando pela cidade tentando nos encontrar em alguém, e com o tempo, não importa quem. E é aí que tudo se complica: acabamos conhecendo alguém, essa pessoa nos parece legal por uma série de signos que nós inconscientemente identificamos nela, ela os identificam em nós também, começamos a sair, as coisas começam a dar certo, vai ficando sério, nos apaixonamos, namoramos, nos amamos, noivamos, nos casamos, temos filhos...

E continuamos sozinhos, mesmo acompanhados. Como diz uma música do Neil Young: "When you get weak / And you need to test your will / When life's complete / But there's something missing still..."

Voltando ao monstro de Frankenstein (no livro, quem se chama Frankenstein é só o doutor; a criatura é chamada de "monstro", "demônio", "aberração"...), ele pede ao doutor que faça um par para ele, uma fêmea, uma igual, um ser da mesma espécie para que ele não se sinta mais tão só. Ele não quer uma mulher qualquer, ele até poderia conseguir, penso cá com meus botões, uma moça cega, sei lá, que não visse sua feição horrenda e que se importasse apenas com o amor que ele tinha para dar, que acreditem, era muito. Não, ele queria um ser igual a ele, que o compreendesse, que tivesse as mesmas emoções que ele, que enxergasse o mundo como ele e seria visto pelo mundo como ele era visto, e então ele sumiria, iria com ela para as florestas tropicais da América Latina para viverem isolados do mundo e em paz. Ao ter seu pedido negado, a criatura conclui seus planos de vingança contra seu criador e se isola nas terras geladas do Ártico. Em um dado momento do livro, ele diz para Frankenstein algo que resume toda sua história: "Quando eu revejo meu terrível catálogo de pecados, eu não posso acreditar que eu sou a mesma criatura que teve os pensamentos uma vez preenchidos com sublimes e transcendentes visões da bela e majestosa bondade. Mas é sempre assim: anjos decadentes se transformam em demônios malignos. Mas até mesmo o inimigo de Deus e do homem tinha amigos e companhia em sua desolação.

Eu estou sozinho."

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Foto: Frankenstein por Rick Baker

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

9. 117kg - VOU DE TÁXI, CÊ SABE....


Não aguento mais andar de Corsa. É sério, tô ficando puto já, toda vez que vou pegar um táxi, pá!, cola um corsinha.
É impressionante, e não tem jeito, posso deixar passar dois, três, começo a me atrasar, fico em cima do horário pra qualquer coisa, só pra ver se vem outro, e não rola, passa um, dois, cinco, 8 corsas, um atrás do outro. Daí quando desencano, que passa o décimo corsinha e eu resolvo ir nele mesmo, é só eu entrar, VRUUÓÓÓÓÓÓMMM, passa um Vectrão desses novos, 4.0, sei lá, espaçoso pra caralho, e eu vou resignado no corsinha, pra alegria do taxista sorridente. Aliás, esses Vectras novos nem fazem VRUUÓÓÓÓÓÓMMM, fazem outra coisa, tipo FFFFSSSSSSSS, o bicho vai que vai sibilando que nem vento, no gás! O foda dos corsas é que como é um sedanzinho barato, com um porta-mala razoável, todo mundo comprou pra táxi, e agora, passado já alguns anos, tão todos castigados pelos buracos, asfalto ferrado, mais de não-sei-quanto mil quilômetros rodados, cansaaaaaados... e dá merda, eu entro no táxi, começa a dar merda. Ou o carro ferve, ou a marcha arranha pra caralho, ou o carro não anda sei lá porque, ou a porta não fecha direito... e não há meios, não adianta ir pro ponto pra pegar um carrinho melhor, porque quando eu chego lá, tem cinco na fila. Ou então eu tô atrasado pra caramba, chego no ponto e tá lá um Astra, uma Weekend, um Vectra, eu falo FIRMEZA, mas o carro que vai sair na hora é o maltido corsinha que tava parado do lado, trocando o pneu. É a pegadinha do corsinha, caio em todas, os caras deixam uns putas carros lá, quando eu chego, é tudo cenário, tudo papelão, sai um corsinha de trás com um motorista com um sorriso de orelha à orelha, safado. Mas até então beleza, esse lance com os corsinhas era uma coisa minha, tipo uma sina, só acontecia quando eu tava sozinho. Quando eu tava acompanhado, sempre vinha uns carros da hora. O problema é que o fardo começou a passar pros meus amigos, e nem a lei do sozinho funciona mais. Dia desses eu contei essa história pro Gustavo, meu dupla, e na manhã seguinte quando ele chamou um táxi, pá!, chegou um corsinha com os pneus carecas. Saí com o Baraldi e o Beto pra ir ao cinema, só tinha corsinha no ponto, claro, e tava caindo um dilúvio desgraçado no dia, e quem disse que o vidro do corsinha desembaçava?? Corrida cega por São Paulo, o cara com a cabeça pra fora tomando chuva na testa pra enxergar o caminho, uma merda. Um brother da pensão me ofereceu carona no táxi que ele tinha pedido até a Vila Olímpia, a moça tinha até confirmado um Meriva bacanão. Foi só eu aceitar, a moça liga de volta dizendo que o táxi que ia atendê-lo teve um problema, mas já estava outro vindo a caminho. Quando chegou... meu, pedi até desculpa pro cara, embora ele não tenha compreendido muito bem. Ferrei dois né? Meu camarada que me ofereceu carona e teve que ir num pau-véio, e o motorista do Meriva, que não tinha nada a ver com a história, mas... maldição é maldição, atinge a todos, sem preconceito de raça, cor, credo ou motorista de táxi.
Isso aliado ao fato de que, quem tá com esses carros agora, estão começando agora tbm, já que é mais barato, compraram usados de outro que comprou um melhorzinho. E tome motorista cabaço espalhado por São Paulo. Dia desses peguei um que era surdo, juro, sem sacanagem! Sabadão, eu indo pro aniversário da Camilla no Rey Castro, parou o famigerado corsinha:
– Boa noite, vamos pra Vila Olímpia, por favor, pra Rua Ministro Jesuíno.
– PRA ONDE???
Pensei "pronto... isso não vai dar certo..."
– VILA OLÍMPIAAA, RUA JESUÍNO....
– AHHHH, VILA OLÍMPIA, NÉÉÉÉÉ? ÉÉÉÉÉ.... O SR. PODER ME DIZER COMO FAZ PRA CHEGAR LÁ? É QUE EU SOU MEIO NOVO...
– Beleza, é só descer a Joaquim Távora, pegar o cebolinha, descer até a Sto. Amaro lá na frente...
– ÃÃÃÃÃNNNNHHH????
– DESCE ALI A JOAQUIM TÁVORA...
– ONDE???
– ALI!!!!!
– AQUI, ESSA AQUI????
– É, LÁÁÁÁÁ, AQUELA LÁÁÁÁ!!!!
– AHHH, ESSA QUE PASSOU????
– ÉÉÉÉ PORRA, ÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉ!!!!
Mano, o cara não teve dúvida: no meio da Vergueiro ele viu que não tava vindo carro do outro lado, só jogou de uma pista pra outra num retorno na contra-mão no meio do canteiro, deu um esquerda-direita na Vergueiro com a Joaquim Távora, tinha uma tiazinha atravessando a Joaquim, meu, se ela não é uma velhinha ninja tinha se fodido: pulou por cima de uma lixeira que tava na rua, perto da calçada, caiu em pé que nem gato do outro lado. E o cara:
– CARAIO, CÊ VIU?? A VÉIA TEM AS MANHA, HEIN....
Foda, muito foda.
E os caras ainda compram o Corsa, 1.0, mete gás natural e ainda instala ar condicionado. Conclusão: dia desses, tava eu no centro resolvendo umas tretas de documento, fui pro ponto, o motorista do corsinha já ficou em posição de sentido. Abstraí e entrei, pedi pra seguir pra Vila Olimpia, onde eu trampo e tentei ficar frio. No meio do caminho, eu sentia uma necessidade IMENSA de ficar frio mesmo, tava um calor desgraçado, eu suando mais que macaco morto a tapas, fechei os vidros e pedi pro cara ligar o ar-condicionado. Galera, cês não vão acreditar: o cara parou perto da calçada, colocou em ponto morto, e na mão que ele apertou o botão do ar, fez um barulhão da porra, o capô abriu e saiu um jegue, de dentro do capô, e começou a puxar o corsinha. Meu, não botei fé, tomei um susto filho da puta e fiquei olhando abismado o jegue puxando o corsinha no meio da 23 de Maio, num pau da porra, 30KM/H!!
– YO SIR... TEM UM JEGUE PUXANDO SEU CARRO???
– SIM SINHÔ, É O BROMÉLIO!!
– MAS MEU SENHOR... É UM JEGUE!!!
– É UÉ, O CARRO É 1.0, MOVIDO A GÁS, O SENHOR PEDE AR CONDICIONADO... SÓ ANDA SE FOR À JEGUE.
– PUTAQUEUPARIU...
E vocês não tem noção people, o cara buzinava e o jegue UUUUUÓÓÓÓÓÓÓ, IIIÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓ, o cara virava o volante pra direita e o jegue próc próc próc pra direita, o cara virava pra esquerda, o jegue próc próc próc pra esquerda, o cara trocava a marcha, saia um chicote SHPÁÁÁÁ SHPÁÁÁÁ no lombo do jegue e o bicho dava um gás... muito lôco!!! Quando a gente chegou, o cara parou, desapertou o botão, o capô abriu e o jegue foi recolhido. Falei "rapaz, como esse jegue saiu de dentro do capô??"
– Ahh doutô, ele fica ali atrás do coletor.
– Mas e o motor??
– Ele fica comprimido ali entre o coletor e o alternador, táintendeno!? Não tem ar comprimido? Então, esse aí é jegue comprimido.
– Mas isso aí é o que?? O senhor que adaptou foi?
– Naaada, isso aí é Technologia JegThrônica®, coisa de alemão...
– Hmmmm...
Desencanei, paguei, atravessei a rua e fui pro trabalho. Pena não ter uma máquina pra tirar foto na hora.
Ahh, se após vocês lerem esse texto e só aparecer corsinha pra vocês também quando chamarem um táxi, deixo aqui meu sincero pedido de desculpas. Abrax!

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

8. 118kg - ONDE OS FRACOS NÃO TÊM VEZ


Certa feita, quando eu morava na Vila Nova Galvão (o último bairro da zona norte de São Paulo, separado de Guarulhos pela Rodovia Fernão Dias), era por volta de umas 4 da tarde quando o Mazinho (nome fictício) chegou meio bêbado em casa, pegou o filho dele, de uns 6 anos na época, e que tinha feito alguma coisa errada, e começou a surrá-lo. Nós eramos vizinhos de parede, eu e minha família – mãe e cinco irmãos, contando comigo – e a família dele. Era uma casa bem pequena, com um quarto, uma sala que virou quarto, uma cozinha e um banheiro. O quarto era da largura dos meus braços abertos, e na época eu deveria ter uns 14 anos, portanto, menor do que sou hoje. A família dele era parecida, morava a mãe e mais cinco filhos, todos pequenos, mais o avô, que era um cara trabalhador mas vivia enchendo a cara. Ele e a filha, mãe das crianças, sempre discutiam. Lembro que um dia ele disse, aos berros, para a filha: “ Vai sair, piranha?? Já vai dar esse cu?? Vê se cobra pelo menos, pra trazer comida pra casa.” Era foda, quase toda noite era assim. Mais ao fundo ainda, moravam a avó das crianças (ela e o avô eram separados) mais uma outra filha e uma pequena garotinha que ela havia adotado. Todas as casas eram separadas apenas pelas paredes, sem espaço entre elas, e da nossa casa, trancados, ouviamos o garoto chorando e o baque seco das pancadas. Mazinho, o pai das crianças, era um bandido, não sei se assaltante ou traficante, e que estava foragido quando fomos morar lá. Um dia ele voltou, o clima era um tanto tenso, mas com a gente era um cara “legal”: educado, comprimentava a todos, não dava problemas. Mas nesse dia, ele segurou seu filho pelas pernas, de cabeça pra baixo (ele era um sujeito bem forte) e o espancou por uns 40 minutos ininterruptos, batendo um um chinelo Rider nas costas do garoto – as marcas do logotipo ficaram impressas nas costas dele. A mãe não estava em casa, pelo que me lembro. A polícia foi chamada, o Notícias Populares também, tiraram fotos, fizeram uma matéria, o Mazinho sumiu por mais um tempo e assim ficou por isso mesmo.

Depois de um tempo, o Mazinho voltou e trouxe seu irmão consigo. Vou chamar o irmão de Enéias (nome fictício) e trouxe também seu sobrinho de uns 24 anos. Na verdade, não me lembro se vieram todos juntos ou primeiro chegou um e depois os outros, o lance é que num dado momento todos estavam lá, o Mazinho, o Enéias e o sobrinho. Enéias era um cara baixinho, nada parecido com o irmão, e tinha constantemente um bafo de chachaça misturado com maconha, os olhos sempre vermelhos, e o sobrinho era um rapaz alto e com o cabelo raspadinho. Num final de semana, não me lembro se era sábado ou domingo, eu estava voltando de um parque de diversões que se instalou lá pelo bairro, lá pelas 9 da noite, e quando eu estava passando pelo quintal cheio de árvores eu parei pra brincar com uma cachorrinha que apareceu por lá, quando ouvi minha mãe me chamando da porta com uma voz afobada “Ernani, entra entra!!!”, eu disse “peraí mãe, tô brincando com a cachorra”, e ela “AGORA, ENTRA JÁ, AGORA!!!”, eu corri e entrei, ela trancou a porta correndo e disse “fica quieto, fica quieto”, quando a gente começou a ouvir uma correria lá fora, seguida de uns sons abafados de pancadaria e uns xingamentos igualmente abafados. Bateram na nossa porta pedindo pra deixar entrar, mas nós não abrimos, com medo óbvio. Os sons foram diminuindo e a pancadaria se distanciando, e depois ouvimos o barulho de gente correndo de novo, pegando coisas dentro de casa e correndo de novo. O que aconteceu foi o seguinte: Enéias e o sobrinho estavam armando uma emboscada para Mazinho, e estavam escondidos nas árvores em que eu parei pra brincar com a cachorra, esperando o Mazinho passar. Assim que eu entrei, o Mazinho passou, o Enéias e o sobrinho pularam em cima dele e começaram a bater, com cabos de enxada e pás, e foram batendo nele até o outro lado do balão. Balão era o nome da rua sem saída em que morávamos, ela tinha um formato de balão mesmo, começando afunilado a partir da avenida principal e abrindo em um formato arredondado na outra ponta, cheio de casas em volta. Da nossa casa até a outra casa em frente a nossa tinha um espaço de uns 100 metros, e foram dando pancada no Mazinho até lá, e quando ele caiu, Enéias enfiou uma faca em sua boca e abriu até a orelha. Fugiram e a polícia tratou de encobrir tudo, afinal Enéias havia feito um favor em matar o Mazinho.

Depois de outro tempo, Enéias e o sobrinho reapareceram, e Enéias assumiu a cunhada, mulher de Mazinho, como sua. Lembro que ele não trampava, ou fazia alguns bicos. Ficava por lá pelo quintal ou sumia, mas o sobrinho estava sempre por lá, cuidando das crianças, fazendo pequenos bicos também, e os dois viviam alterados, fumados, cheirados ou bêbados. Um dia, não me lembro direito sob quais circunstâncias, começou outra pancadaria, dessa vez a tarde, por volta de 5 ou 6 horas. O sobrinho espancou o Enéias com o cabo de uma foice, foi batendo nele até o meio do balão, e depois deu com a lâmina na cabeça de Enéias, que ficou chorando todo ensanguentado, andando em círculos tentando estancar o sangue com as mãos. Não morreu por conta disso, pelo que me lembro, mas morreu depois, acho. O sobrinho sumiu novamente. De tudo isso, a lembrança que mais ficou na minha cabeça, além do som das pauladas que Mazinho levou de Enéias e do sobrinho, foi a imagem de Enéias rodando pelo balão, sem camisa e ensanguentado, com as mãos na cabeça. Me lembro porque ele chorava engraçado, como nunca vi alguém chorar antes ou depois disso. Ele andava pra lá e pra cá, dizendo “Ah-Úúúúúnnn, minha cabeeeeeça, Ah-Úúúúúnnn, minha cabeeeeeça, Ah-Úúúúúnnn...”.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

7. 118kg - SEXO & CHOCOLATE


A relação que homens e mulheres tem com o chocolate é muito parecida, se não igual, a que os homens e mulheres tem com o sexo. E o maluco da história é que pra nós, homens, é impossível entender essa relação das mulheres com o chocolate, simplesmente porque nascemos com os cromossomos x e y. Tá no nosso dna não entendermos, não é por preguiça ou por não nos importarmos. É simplesmente... não entender mesmo. Dia desses, assistindo Juno, alguém no filme diz a seguinte frase: a mulher vira mãe quando engravida, e o homem vira pai quando vê o filho. A relação que uma mãe tem com o filho, ou filha, também nunca será compreendida pelos homens ou pelas mulheres que não são mães. É outra relação, totalmente alienígena. Assim como as mulheres nunca vão entender nosso tesão em correr a toda velocidade com um carro bacana ou sair pra jogar futebol domingo de manhã. Não tá no dna delas compreenderem essas coisas, simples assim. De volta ao chocolate. Acho fascinante o sentimento orgasmático que as mulheres tem ao saborear um chocolate, a volúpia, os gemidos, aquela coisa de ficar leve e de transcender o cosmo que bate quando as meninas colocam aquele bloquinho de leite, cacau, açucar e um monte de conservantes, acidulantes e espessantes na boca. Sublimam mundos deliciosos de João e Maria, um conto de fadas onde tudo seria de um chocolate que não engorda e não dá espinhas, embora seja cientificamente provado que chocolate não dá espinhas. Príncipes encantados com pedaços de avelãs, aos quais elas possam arrancar um braço com uma dentada, montados em cavalos brancos com flocos, que possam ser derretidos para fazer cobertura das mais variadas para as mais variadas espécies de guloseimas, todas de chocolate.
Como o sexo.
Todas esperam um príncipe maravilhoso que as levem alto aos céus, imaginam flutuar nos braços de tal galã como se nadassem num vácuo de nuvens fofinhas, protegidas e extasiadas. Lendo uma entrevista com um ginecologista, Malcolm Montgomery, na Playboy, um que cuida das famosas por aí, ele falou um lance ducarai: “...as mulheres crescem vendo filmes em que na hora da transa, explode um vulcão e há revoadas de pássaros. Aí tem a primeira relação no aperto de um carro com alguém que ejacula rápido. É frustrante.” Pra mim, esse é o perigo de encarar o sexo como as mulheres encaram, porque mesmo quando não são mais virgens, a frustração causada por tanta idealização é pior do que qualquer espinha ou quilos e quilos adquiridos com chocolates de péssima qualidade.
Já nós, homens, comemos por farra.
O chocolate, claro.
É bom um chocolatinho de vez em quando, dá uma adoçada na boca, mas quando acaba, acaba. Você amassa a embalagem e joga fora, dá uma respirada funda e continua com a vida. Não existem essas miríades de sensações orgiásticas que as mulheres sentem, não nos levam às alturas e nem nos transportam para mundos magníficos onde tudo é lindo. Também é científicamente comprovado que o chocolate libera uma série de substâncias, como serotonina e outros ínas que causam essa sensação de felicidade, em ambos os sexos, mas nas mulheres, isso acho eu, o chocolate misturado aos progesteronas da vida causam essas sensações idílicas, e em nós, quando misturados à testosterona, e quando o chocolate é bem bom, dá só uma puta sensação de prazer. Mas é muito bom quando o chocolate derrete na nossa boca e nos causa essa sensação de prazer.
Como o sexo.
Derreter na nossa boca é válido para ambos os casos inclusive, chocolate e mulheres. Sexo para os homens não tem esse negócio todo de idealização de uma princesa meiguinha em nossos braços. A princesas acabam sempre sendo a Pamela Anderson, Angelina Jolie ou Juliana Paes e não são nada meiguinhas. Claro, existem mulheres e mulheres, e eventualmente... acabamos sucumbindo né, fazer o que. Na falta de um suíço, chocolate suíço, vai um de fundo de quintal mesmo, ali na hora da carência, não é assim pra vocês mulheres? Porque homem, ao contrário do que pensam as mulheres, sofrem de carência sim senhora, mas mulheres conseguem acabar com ela simplesmente com uma boa barra de Toblerone, e nós, homens, acabamos com a carência com aquela amigota feinha e disposta lá no fim da agenda telefônica. Claro que se for uma suíssa, mulher suíssa, uau! Na verdade, é mais fácil uma mulher feinha nos levarem aos céus do que uma barra de chocolate, neguinho por aí se apaixonam aos montes por um bom movimento de cintura e capacidades rebolativas das desprovidas de beleza, mas como diria o poeta, as feias que me desculpem, mas beleza é fundamental.
Sexo, para nós homens, só tem a mesma conotação de nos fazer parar em outros mundos quando estamos apaixonados, perdidamente apaixonados. Aí, inclusive, tudo vira um mar de chocolate cremoso e quente e derretido onde a gente bóia (homem que é homem não flutua, bóia), então, onde a gente bóia de braços abertos à deriva, nos deixando ser carregados pela correnteza, indo parar em qualquer lugar que seja.
Como um bom chocolate, pras mulheres.
Uma mulher quando degusta um excelente chocolate importado e caro é como ter nos lábios o galã gostosinho de barba por fazer da última novela das 7, seja em qual época for, onde todos andam sem camisa e cabelo milimetricamente desarranjado, enquanto pra nós, ter nos braços aquela garota que a gente deseja loucamente nunca vai ser como saborear um chocolate, seja ele raro como for. É claro que também há mulheres que encaram o sexo como nós, homens, encaramos. E então, quando uma mulher encontra um Lindt maravilhoso, ou um homem encontra sua Godiva deliciosa, aí sim, tudo acaba em sexo e chocolate, que é como as coisas deveriam sempre acabar.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

6. 118kg - A PIPA DO CAÇADOR NÃO SOBE MAIS (ÔIIIIIII)



A única época em que eu detesto mulata rebolando é no carnaval. Esse povo se remexendo freneticamente olhando pra câmera com um sorriso de orelha a orelha, toda essa alegria hedonista carnavalesca me deixa de saco meio cheio. Não que eu seja contra carnaval, nem sou, acho bacana como manifestação cultural e tudo o mais, mas que torra minha paciência torra. Como me recuso a ter televisão no meu quarto, e na pensão tem tv na sala mas também tem um gerente inútil mala pra cacete, que fica na sala vendo a porra da tv, nem cheguei perto de carnaval esse ano. Me enfiei no cinema, circuíto HSBC Belas Artes-Espaço Unibanco-Cine Bombril. Só filme cabeção. E fui na exposição do David LaChapelle no MuBE também. E comprei uns livros. Carnaval pra mim, na verdade, foi não estudar, não escrever, e detonei no rango. Mas como não comi pra caralho, então continuei emagrecendo. E pra provar que eu sou um cara firmeza, vou colocar em prática toda a minha verve de crítico de cinema pra resenhar os filmes pra vocês, amados leitores. Assistam por sua conta e risco. Pega essa:



JUNO
Direção: Jason Reitman
Com Ellen Page, Michael Cera, Jennifer Garner e grande elenco.
Quanto você dá, Aracy de Almeida!?: vai levar 8 paus! Aliás, a mina já levou um pau!, então vai levar 9 paus!

Bonitinho. Essa é a palavra pra definir Juno. Trilha sonora boa. Elenco bom. A minazinha Ellen Page, que fez a Kitty Pride no X-Men e a menina má do MeninaMá.com, manda bem. Os outros atores também. A meia listradinha na hora do parto tava lá pra emocionar os desprevinidos, mas hey!, eu tenho mais de 30, essas merdas não funcionam mais comigo, rárárá! Sifuderam. Mas o David e a Thalita choraram. Cagüeto mesmo.



ONDE OS FRACOS NÃO TEM VEZ
Direção: Irmãos Coen - Joel Coen (Tim Burton) e Ethan Coen (Nando Reis)
Com Javier Barden, Josh Brolin, Tommy Lee Jones e médio elenco.
Quanto você dá, Aracy de Almeida!?: vai levar 9 paus e um ventinho na testa!

A decadência do velho oeste. Um homem sem futuro. Um xerife com crise existencial. Um assassino frio e calculista. Esse é o quadro apresentado nesse filme dos Irmãos Coen. Quem for assistir, vá com a seguinte filosofia na cabeça: “A vida é um sanduíche de merda, e a cada dia que passa a gente dá mais uma mordida.” Aliás, aconteceu uma parada comigo no cinema que eu achava que era lenda urbana: tinha uma tiazinha sentada na cadeira atrás de mim que ficava assim: “Ohhhh... Meu Deus... E agora?.... Ohhh...” e na cadeira da frente, uma loirinha dava uns pulos de 20 metros toda vez que alguém dava um tiro, e tem tiro pra cacete no filme, então a menina parecia um cangurú na cadeira. No final, não tem final. Vou aguardar a continuação: “Alien, Predador, Freddy Krueger e Jason Vorhees VERSUS Anton Chigurn.” Vão por mim, people, não vai dar nem pro cheiro pros quatro.



EU SOU A LENDA
Direção: Francis Lawrence
Com Will Smith, Alice Braga e nenhum elenco.
Quanto você dá, Aracy de Almeida!?: Gruuuuuaaaaarrrr, huuuurrrr, rooooaaaarrrrr, mioooolos.

Outra vez: tô lá no Cinemark do Sta. Cruz (também pedi, né?), assistindo o filme, e um cara do meu lado explicando o filme pra namorada dele! Porra, a mina era mais burra que um zumbi! O que tem pra entender no filme??? Aliás, ou a mina era burra ou o cara era um puta mala, o que é uma afirmação correta. O lance do filme é o seguinte: uma cientista cria um virus geneticamente modificado a partirrrrrrrrr de um virrrrrrrgghhus do saraaaaammmppppffff e daíiiiiirrrrgggg uuuurrrrrrhhhhhhgggggg grrrruuuuuuuuuuurrrrr rrruaaaaaaaaaaarrrrrrrrggg gggrrraaaaauuuuurrrrrrrr rrrueeeeeerrrrrr ggrrrrrooooommmphs brrrroaaaaaaaaaaaa ruuuuuuuuuuuurrrrrhh gggrrraaaaa rrrrrrraaaaaaaaaarrrrr mmmmrururuuuuuuuuuuuu brrrraaaaaaaaaaaaaaaa ggggghhhhhhhh.



PARANOID PARK
Direção: Gus Van Sant
Com quem???
Quanto você dá, Aracy de Almeida!?: Vai levar um skate no crânio!

Lars Von Tri...ops!, Gus Van Sant é mestre em pegar um monte de gente desconhecida e fazer um filme. Foi assim com Elephant também. Outra característica do diretor é que os filmes dele não tem um final, só acabam, como se



O CAÇADOR DE PIPAS
Direção: Marc Foster
Com Muhhammad Ali, Ali Babbah, Loh’go Ali e um elenco cheio de L, M e H.
Quanto você dá, Aracy de Almeida!?: Alahh Shallam Aleikum Shalam Ahmed.

O melhor do filme é a animação dos créditos e as tomadas das pipas. De resto, é ruim, mas ruim! Pior que não dá nem pra saber se o elenco tá atuando direito os afegãos são tudo esquisito, é tudo trocado. Fora que o personagem é um puuuuuuta dum covarde, mas de dar raiva! O Hassam salva ele, o pai dele salva ele, depois o filho do Hassam salva ele, todo mundo salva o cara, que inútil!!! Fui assistir com o David e a Thalita, que leram o livro e disseram que o filme é uma bosta. Mas eles choraram quando o Amir leu a carta. Quem ganha o Oscar? A Caaaaaartaaaa.



A VIDA DOS OUTROS (Oscar de melhor filme estrangeiro de 2007)
Direção: Florian Henckel von Donnersmarck
Com Ulrich Mühe, Sebastian Koch, Martina Gedeck e mais um monte de trava-línguas.
Vai levar quanto, Aracy de Almeida!? Já levou o Oscar, porraaaa!

A Vida dos Outros é sobre isso mesmo, a vida dos outros. Um espião da Alemanha Oriental espiona um dramaturgo e a mulher dele, uma atriz cagueta que dá pra outro. Parece um bando de dona Fifi, só na fofoquinha. Mas o filme é bem bom, gostei pra cacete, até porque tinha uma minazinha sentada do meu lado beeeem bacana. Pô, tem umas intelectuais beeem gostosas nesses cinemas cabeções viu! Eu ia jogar uma conversa fiada nela, mas quando o filme acabou minha garrafa d’água caiu no chão, e quando eu me abaixei pra pegar a mina rapou fora. Garrafa traidora filha da puta!



4 MESES, 3 SEMANAS E 2 DIAS.
Direção: Cristian Mungiu
Com Anamaria Marinca, Laura Vasiliu, Vlad Ivanov. Não consigo pensar em nenhuma piadinha com a Romênia. Conde Drácula? Que mais?
Quanto você dá, Aracy de Almeida!?: Vai levar 7 empaladas!

Depois de assistir A Vida dos Outros, fiquei esperando minha amiga Patrícia, fomos comer, fizemos hora na Livraria Cultura e fomos ver essa película romena aí. Mas tava mais divertido ficar olhando a Patrícia se retorcendo na cadeira, rárárá! Filminho foda viu!, se eu contar mais um pouco estraga a trama, mas é bom ver. Principalmente pra mulherada. O importante é entender o contexto histórico em que se passa o filme: a Romênia Comunista de 1987. Tudo era muito difícil de se conseguir, até cigarro. O que isso quer dizer? Comunismo é sempre uma merda. Mas isso todo mundo sabe.


"Miracle Tan" Pamela Anderson por David Lachapelle

HEAVEN TO HELL
DAVID LACHAPELLE

Fora cinema, rolou também a exposição do David LaChapelle no MuBE, o museu de escultura que não tem escultura. LaChapelle é sempre ducarai, umas putas cores contrastadas, as fotos com uma produção ferrada e os peitos da Pamela Anderson aí. Tinha uma foto que chamava Cunnilingus Rex, rárárá!, e era um dinossaurão metendo o nariz entre as pernas de uma mina. Só estranhei não ter nenhuma foto de nenhum negrão bombado e besuntado com um tubo de ensaio enfiado no cu. Ele adora essas merdas.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

5. 119 kg - FINESSE


– Zé... Zé...
– Hmmm...
– Zéééé...Zé.
– Hmmmm...?
– Zé... acorda... por favor...
– Que...? Que foi?
– Acorda...
– Ca, que foi??? Cê tá chorando???
– Zé....
– Que foi, aconteceu alguma coisa?? Alguém morreu??
– Não...
– Se machucou??
– Não...
– Foi um pesadelo??
– Não...
– MeuDeusdocéu, que aconteceu, porque você tá chorando??
– Zé... você me ama?...
– Que...???
– Você me ama??
– Ca... você me acorda chorando, às 3:30 da manhã, pra saber se eu te amo?
– É...
– Uai, peraí. Tem alguma coisa errada. Que depressão é essa?
– É que eu queria ouvir você dizer.
– Não é possível. Cê tá grávida?
– Não...
– Então é depressão pós parto, você já teve um filho, eu nem fiquei sabendo, e agora você tá com essa depressão toda, é isso né?
– Não, claro que não, que absurdo!!!
– De novo: você me acorda chorando, às 3:30 da manhã, pra saber se eu te amo?
– É que eu preciso saber...
– Porra... te amo, mas pode ter certeza que nesse exato momento eu te amo menos.
– Ai, seu grosso, insensível.
– Insensível, eu?? Pô, tô aqui dormindo de boa, sonhando gostosinho, quentinho, e você me acorda chorando, resfolegando, pra perguntar se eu te amo, e eu é que sou o insensível?
– É que eu preciso saber...
– Porra, mas eu te falo todo dia que te amo, te ligo de manhã, te ligo depois do almoço pra saber como você tá, sempre preocupado com você, quer mais prova do que isso?
– É que eu tô deprimida...
– Deprimida por que, porra???
– Eu não sei...
– Como não sabe??
– Eu não sei, ué, depressão dá assim, sem você saber por que!
– Que merda, você fica deprimida e eu que me fodo! Eu te dei algum motivo pra você achar que eu não te amo?
– Não...
– Cê acha que eu tenho uma amante??
– Não...
– ENTÃO POR QUE VOCÊ ACHA QUE EU NÃO TE AMO???
– Ai credo, eu hein, deixa pra lá, só queria ouvir, só isso...
– Só queria ouvir??? Porra, você me acorda chorando, as 3:30 da manhã, com uma puta olheira, olho vermelho, esse cabelo desgrenhado, me dá um susto do caralho, meu coração quase pára, e ainda quer ouvir que eu te amo??? Que jeito???
– Caramba, Zé, eu só queria saber, só isso, não era pra tanto.
– Ahh, não era pra tanto?? O que você iria achar se eu te acordasse as 3:30 da manhã, chorando, desesperado, perguntando se você não pode me dar o cu?

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Foto: Woody Allen e a morte, "Noivo Neurótico, Noiva Nervosa"

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

4. 121.5kg - EU E SUPLICY, SUPLICY E EU.


Essa é uma daquelas situações kafkanianas bem ridículas que só acontecem comigo...acho. Certa feita, tinha acabado de terminar meu namoro e tinha sido um término daqueles, com choradeira, mágoa, raiva e tudo o mais. E nessa, ela me dizia que eu nunca tinha sentido nada por ela, porque eu não demostrava nenhum sentimento, que eu estava com uma cara inalterada, insensível, parecendo um robô. Pegou as coisas, foi embora e eu fiquei sentado na cama olhando pro nada realmente com uma cara de robô. Estava próximo da hora do almoço, então liguei pra um amigo pra saber se ele a fim de almoçar por aí e conversar um pouco, mas com o Baraldi nada nunca é pra já, de modo que eu teria que esperar umas 3 horas pra rangar. Daí resolvi dar um rolê pelo parque do Ibirapuera pra dar quela espairecida e pensar sobre isso, sobre como a gente fica meio robotizado mesmo quando tem que terminar um relacionamento. Esse pensamento foi evoluindo pra como a gente fica robotizado com ao longo do tempo mesmo, não só em términos de relacionamento, mas aos poucos a vida vai transformando a gente em pessoas duras e um tanto insensíveis, e que daqui a pouco o nosso corpo vai começar a produzir componentes eletrônicos, fiquei viajando em roteiro de filme e no término do namoro. Tava rolando a Bienal de Arte, resolvi entrar pra dar uma olhada, mas o tema era “Como Viver Junto”, e achei que a Bienal não poderia me ajudar, infelizmente. Como a fome já tava batendo, e ia demorar pra almoçar, resolvi comer uma esfiha e beber alguma coisa qualquer num quiosque ali, só pra dar uma forrada. Sentei, pedi as paradas e fiquei ali matutando sobre como aplicar as três leis da robótica num relacionamento. Nisso ouço uma voz conhecida, um sujeito sentado ao meu lado tava lendo um livro em voz alta pra uma mulher, poesia ou algo to tipo, mas tava virado pra ela, então não conseguia ver quem era. Continuei comendo na manha, o cara terminou de ler, comentaram sobre como o tal poeta era um gênio aos vinte e três anos, se ajeitou no banquinho e pude ver que era o senador Eduardo Suplicy, lendo em voz alta um livro do Carlos Drummond de Andrade pra uma amiga. Se virou pra mim e me comprimentou cordialmente, “Bom dia, amigo, tudo bem?”, respondi “Tudo bem?” também e pedi mais uma esfiha. Nessa ele começa a ler outra poesia pra mina, e num certo momento consigo ouvir um trecho que dizia “... o primeiro amor passou, o segundo amor passou, o terceiro amor passou, mas o coração continua”, e eu imediatamente comecei a chorar pra caraaaaaaaaaalho! Putaqueupariu, até parei de comer, e Deus sabe que aquela esfihinha tava bem boa, mas não conseguia nem mastigar. Mas vocês não tem noção, tava chorando de soluçar mesmo, mó sentidão, zuado, daqueles que dá até falat de ar. Toda a minha humanidade voltou de uma vez só, caindo como uma bomba sobre minha cabeça. Fiquei nessa chorando até ele terminar a poesia, e quando eu pedi a conta com a voz chorosa ele se virou e disse:
– Tudo bem, meu filho?
– Tudo bem... snifs... tudo bem sim... sughs... (limpando as lágrimas).
– Hmmm...
Paguei a conta e quando tava saindo disse.
– Até mais, senador, que bom que pelo menos era o senhor que tava lendo essa poesia e não o Paulo Maluf.
– Mas tá tudo bem mesmo?
– É, tá tudo bem, é só que quando eu votei no senhor nunca imaginaria que esse voto seria devolvido.

(Um aparte aqui: tem vez que eu tenho a incrível capacidade de falar umas merdas que eu não sei de onde vem, sério, não é culpa minha. Eu abro a boca, e lá das entranhas, sem fazer esforço nenhum e sem articular a boca, a besteira sai.)

Dei um tapinha nas costas do senador e fui andando pela alameda ao redor do lago, procurando um banco pra sentar e sentir plenamente minha recém humanidade readquirida, ainda choramingando um pouco.

Andei uns 100 metros e ouço uma voz novamente conhecida atrás de mim: “Ô AMIGÔ”. Me virei pra ver quem era e CARALHO!, era o senador correndo atrás de mim no meio do Ibirapuera. “AMIGO, AMIGO, UM MOMENTO POR FAVOR”

– Ô amigo, depois que você saiu minha amiga me disse que não entendeu direito o que você quis dizer com devolver o voto, venha, venha explicar pra gente, eu não percebi na hora mas ela achou que eu deveria saber, e acabei ficando intrigado também.
“Putaqueupariu entranhas filhas das putas”, pensei, “e o que eu vou dizer pro cara agora?” Lá fui eu chorando atrás do senador. Chegamos lá no quisque novamente e a amiga dele: “Oi, é que o que você disse sobre o voto devolvido foi muito interessante, e como parece que você não tá muito legal achei que ele (o senador) deveria saber o que isso queria dizer, vindo de um dos seus eleitores”.
E nisso foi chegando gente. Políticos atraem, né.
– É, porque eu tenho que devolver os votos fazendo um bom trabalho no senado e blábláblá...
Cacete, e agora. Fiquei lá com o olhos marejados olhando pra cara do senador e da amiga dele pensando o que esse negócio de devolver voto queria dizer.
E nisso foi chegando gente.
Quando ele terminou comecei a falar sem parar:
– Sabe o que é senador é que eu acabei de terminar um namoro e eu tava me sentindo meio mal meio robotizado sabe e quando eu falei em devolver voto claro o senhor faz um bom trabalho e eu nem sou fã de políticos confesso mas voto no senhor e quando o senhor leu aquela poesia lá me deu uma tristeza e daí eu comecei a chorar e me sentir melhor e então o senhor devolveu o voto pra mim diretamente não como cidadão mas como uma pessoa em particular mesmo saca e o senhor parece ser um cara legal então...”
– Qual foi a poesia – ele me cortou.
E nisso tinha já uma vinte pessoas ao nosso redor, vendo o senador.
– Ahh, uma que falava que o primeiro amor passou, o segundo amor passou...
– Ah, é essa daqui.
E eu pensando “nãonãonãonãonãonãonão...” mas não teve jeito, e foi assim que num domingo, lá pelas 13 horas da tarde o senador ficou lendo poesia pra um Tim cheio de lágrimas nos olhos com vários espectadores assistindo o recital do Suplicy. “Consolo na Praia”, o nome da poesia, ó que beleza. O poema terminava com “Estás nu na areia, no vento... Dorme, meu filho.” (é, é foda), e quando ele disse “dorme, meu filho” ele deu um tapão nas minhas costas e disse bem alto, com um sorrisão: “VAI DORMIR, MEU FILHO!”, mas como isso pareceu meio rude, imediatamente ele corrigiu: “vai descansar, um novo amor virá.”
Graças a Deus ninguém começou a bater palmas. Malditas entranhas com vida própria. Maldita humanidade traidora.

Para seu regozijo e deleite, segue aí a poesia:

Consolo Na Praia
Carlos Drummond de Andrade

Vamos, não chores.
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.

O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.

Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis carro, navio, terra.
Mas tens um cão.

Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humour?

A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.

Tudo somado, devias
precipitar-te, de vez, nas águas.
Estás nu na areia, no vento...
Dorme, meu filho.