quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

8. 118kg - ONDE OS FRACOS NÃO TÊM VEZ


Certa feita, quando eu morava na Vila Nova Galvão (o último bairro da zona norte de São Paulo, separado de Guarulhos pela Rodovia Fernão Dias), era por volta de umas 4 da tarde quando o Mazinho (nome fictício) chegou meio bêbado em casa, pegou o filho dele, de uns 6 anos na época, e que tinha feito alguma coisa errada, e começou a surrá-lo. Nós eramos vizinhos de parede, eu e minha família – mãe e cinco irmãos, contando comigo – e a família dele. Era uma casa bem pequena, com um quarto, uma sala que virou quarto, uma cozinha e um banheiro. O quarto era da largura dos meus braços abertos, e na época eu deveria ter uns 14 anos, portanto, menor do que sou hoje. A família dele era parecida, morava a mãe e mais cinco filhos, todos pequenos, mais o avô, que era um cara trabalhador mas vivia enchendo a cara. Ele e a filha, mãe das crianças, sempre discutiam. Lembro que um dia ele disse, aos berros, para a filha: “ Vai sair, piranha?? Já vai dar esse cu?? Vê se cobra pelo menos, pra trazer comida pra casa.” Era foda, quase toda noite era assim. Mais ao fundo ainda, moravam a avó das crianças (ela e o avô eram separados) mais uma outra filha e uma pequena garotinha que ela havia adotado. Todas as casas eram separadas apenas pelas paredes, sem espaço entre elas, e da nossa casa, trancados, ouviamos o garoto chorando e o baque seco das pancadas. Mazinho, o pai das crianças, era um bandido, não sei se assaltante ou traficante, e que estava foragido quando fomos morar lá. Um dia ele voltou, o clima era um tanto tenso, mas com a gente era um cara “legal”: educado, comprimentava a todos, não dava problemas. Mas nesse dia, ele segurou seu filho pelas pernas, de cabeça pra baixo (ele era um sujeito bem forte) e o espancou por uns 40 minutos ininterruptos, batendo um um chinelo Rider nas costas do garoto – as marcas do logotipo ficaram impressas nas costas dele. A mãe não estava em casa, pelo que me lembro. A polícia foi chamada, o Notícias Populares também, tiraram fotos, fizeram uma matéria, o Mazinho sumiu por mais um tempo e assim ficou por isso mesmo.

Depois de um tempo, o Mazinho voltou e trouxe seu irmão consigo. Vou chamar o irmão de Enéias (nome fictício) e trouxe também seu sobrinho de uns 24 anos. Na verdade, não me lembro se vieram todos juntos ou primeiro chegou um e depois os outros, o lance é que num dado momento todos estavam lá, o Mazinho, o Enéias e o sobrinho. Enéias era um cara baixinho, nada parecido com o irmão, e tinha constantemente um bafo de chachaça misturado com maconha, os olhos sempre vermelhos, e o sobrinho era um rapaz alto e com o cabelo raspadinho. Num final de semana, não me lembro se era sábado ou domingo, eu estava voltando de um parque de diversões que se instalou lá pelo bairro, lá pelas 9 da noite, e quando eu estava passando pelo quintal cheio de árvores eu parei pra brincar com uma cachorrinha que apareceu por lá, quando ouvi minha mãe me chamando da porta com uma voz afobada “Ernani, entra entra!!!”, eu disse “peraí mãe, tô brincando com a cachorra”, e ela “AGORA, ENTRA JÁ, AGORA!!!”, eu corri e entrei, ela trancou a porta correndo e disse “fica quieto, fica quieto”, quando a gente começou a ouvir uma correria lá fora, seguida de uns sons abafados de pancadaria e uns xingamentos igualmente abafados. Bateram na nossa porta pedindo pra deixar entrar, mas nós não abrimos, com medo óbvio. Os sons foram diminuindo e a pancadaria se distanciando, e depois ouvimos o barulho de gente correndo de novo, pegando coisas dentro de casa e correndo de novo. O que aconteceu foi o seguinte: Enéias e o sobrinho estavam armando uma emboscada para Mazinho, e estavam escondidos nas árvores em que eu parei pra brincar com a cachorra, esperando o Mazinho passar. Assim que eu entrei, o Mazinho passou, o Enéias e o sobrinho pularam em cima dele e começaram a bater, com cabos de enxada e pás, e foram batendo nele até o outro lado do balão. Balão era o nome da rua sem saída em que morávamos, ela tinha um formato de balão mesmo, começando afunilado a partir da avenida principal e abrindo em um formato arredondado na outra ponta, cheio de casas em volta. Da nossa casa até a outra casa em frente a nossa tinha um espaço de uns 100 metros, e foram dando pancada no Mazinho até lá, e quando ele caiu, Enéias enfiou uma faca em sua boca e abriu até a orelha. Fugiram e a polícia tratou de encobrir tudo, afinal Enéias havia feito um favor em matar o Mazinho.

Depois de outro tempo, Enéias e o sobrinho reapareceram, e Enéias assumiu a cunhada, mulher de Mazinho, como sua. Lembro que ele não trampava, ou fazia alguns bicos. Ficava por lá pelo quintal ou sumia, mas o sobrinho estava sempre por lá, cuidando das crianças, fazendo pequenos bicos também, e os dois viviam alterados, fumados, cheirados ou bêbados. Um dia, não me lembro direito sob quais circunstâncias, começou outra pancadaria, dessa vez a tarde, por volta de 5 ou 6 horas. O sobrinho espancou o Enéias com o cabo de uma foice, foi batendo nele até o meio do balão, e depois deu com a lâmina na cabeça de Enéias, que ficou chorando todo ensanguentado, andando em círculos tentando estancar o sangue com as mãos. Não morreu por conta disso, pelo que me lembro, mas morreu depois, acho. O sobrinho sumiu novamente. De tudo isso, a lembrança que mais ficou na minha cabeça, além do som das pauladas que Mazinho levou de Enéias e do sobrinho, foi a imagem de Enéias rodando pelo balão, sem camisa e ensanguentado, com as mãos na cabeça. Me lembro porque ele chorava engraçado, como nunca vi alguém chorar antes ou depois disso. Ele andava pra lá e pra cá, dizendo “Ah-Úúúúúnnn, minha cabeeeeeça, Ah-Úúúúúnnn, minha cabeeeeeça, Ah-Úúúúúnnn...”.

4 comentários:

Anônimo disse...

Cacete, Tim. Mórbida essa, não? Só ficou a dúvida de quem eram os fracos, já que em alguns trechos eles eram fortes e depois ficaram fracos, pra depois ficarem fortes de novo... Putz, que zona! É verídica essa bagaça?

Paulo

Luiz "TIM" Ernani disse...

Cara, verdade verdadíssima. Foi foda esse dia.
Abrax!

Lexotânica disse...

Lu, sai um bom roteiro daí, hein...

Luiz "TIM" Ernani disse...

Rsrs... pode ser...