segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

CARANGUÊJO BLUES


Fim de semana tava em Aracaju, a trabalho, e quando fomos jantar, a galera agitou de comer caranguejo. Firmeza, lá vamos nós. Depois de muito martelar a patinha do bicho pra extrair uma merrequinha de carne, fiquei pensando no primeiro cara que teve a idéia de comer um caranguejo. Deveria estar com uma fome da porra, sério, porque a parada é difícil, viu. Fico imaginando o sujeito andando há dias, só com uma garrafa, ou cantil d’água pra beber, um náufrago talvez, sei lá. Mas não tinha que ter nada pra comer, nada nada nada mesmo, nem mato, nem fruta, broto de bambu, zero. Daí então, brota o caranguejo da terra e o cara “ahhh, vai tu mesmo”. E outra, como ele fez pra comer também né? Porque hoje tem todo um aparato, os bichos vem com um martelo e uma pedra de mármore pra você descer o reio. Pei pei pei, martela martela martela, chupa a carne das pernas do coitado. O que já é bem estranho, já que comida normalmente vem com garfo e faca. Essa vem com um martelo e uma pedra. Isso hoje – imagina quando o primeiro cara resolveu comer um desses. Deve ter sido uma briga feia, viu, porque o bicho é bélico! Sério, se você não for na manha, ele te machuca, mesmo morto. A gente tava em 4, pedimos 8. É servido numa bandeja, vem com as patas todas pra cima, ameaçador mesmo, sem sacanagem. Casca dura da porra, e outra, tem uns espinhos na casca, se você pega ele meio sem jeito, ele te fura. “Se eles querem o meu sangue, terão o meu sangue só no fim”, é o lema do caranguejo. Morre atirando, macho pra caralho. Fora que ele vem te olhando nos olhos! Porque o bicho tem os olhos saltados normalmente, e quando o cozinheiro joga o bicho vivo na água fervente, deve saltar mais ainda, daí então estou eu arrancando a pata dele e ele olhando pra mim. Podia ouvir sua voz:
– Isso, safado. Arranca minha perna mesmo, martela minha pata. Você vai lembrar disso pro resto da vida. Meus olhos vão te seguir por toda a eternidade...
– Desculpa, senhor caranguejo, mas eu tenho que fazer a linha com o povo do trampo aqui!
– Politicians... the hell is yours.
O bicho deve ter evoluído pra caramba, deve ter elaborado sua carapaça pra se proteger dos predadores durante anos, e morre numa panela de água fervente, pra depois ainda ser martelado.
E isso eu tô falando das patas e da perna, hein, pq na hora de comer o corpo, é bizarro. E meu dupla falando normalmente:
– Tim, é assim: você abre o corpo no meio, mas tira esse negócio preto, porque é bosta. Depois tira esse negócio aqui, é o pulmão do bicho.
PORRA, BOSTA??? PULMÃO??? Tô fora. Na verdade, não vejo muito sentido em comer caranguejo, assim como não vejo sentido em comer um monte de outros bichos. Em casa a gente foi criado com Carne de vaca, porco, frango e peixe. Camarão, só comi na adolescência, que me lembro. Uma vez, depois de velho, fui comer prato com coelho, num restaurante. Não rolou, e eu morrendo de fome. Troquei o prato, pedi desculpa pra garçonete, paguei pelos dois. Cordeiro até vai tbm, ainda mais o do Jacaré, com um molho de hortelã que vem junto, bom demais viu. E outra, não tenho que tirar o pulmão dele pra comer. Quando você pede um bife, é um bife. Não dá pra associar muito com a forma viva do bicho, seja lá qual for. Uma coxa de frango talvez, mas uma bisteca com certeza não. Mas o caranguejo lá olhando pra tua cara enquanto você degusta sua pata, rapaz, tem que ter sangue frio. Comi meio só. Na verdade, comi duas patas e uma perna. Ainda bem que fui convencido a pedir um caldo de susuru também. Sauna individual via oral, o caldo de sururu. Bom que deu uma limpada no intestino, porque depois, de volta ao hotel, rapaz...

4 comentários:

Pat disse...

Nossa que aventura...tem que ser mal pra comer isso.
Eu teria comprado um toddynho :)

bj!

Pat disse...

ops...corrigindo... "mau"!!!!!

Gilberto C. Barros - Diretor de Arte disse...

Porra Tim, virou escritor??? Li tudo, tá muito bom, direção de arte o caralho.

Abs

Sandra disse...

Credo...que exagero...
Peça kani-kama da próxima vez..hehe
bjos